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26 de dezembro de 2010

A justiça

Com a justiça, apresento a ultima das quatro virtudes cardeais (que de acordo com conceitos formados pela Igreja Catolica polarizam as outras virtudes humanas).
A justiça talvez seja o valor mais controverso. Pois é difícil definir e mensura-la.  Para Comte-Sponville ela é sem dúvida a única virtude cardeal que é absolutamente boa.
"A justiça não é uma virtude como as outras. Ela é o horizonte de todas e a lei de sua coexistência. “Virtude completa”,dizia Aristóteles. Todo valor a supõe; toda humanidade a requer.
O justo, inversamente, será aquele que não viola nem a lei nem os interesses legítimos de outrem, nem o direito (em geral) nem os direitos (dos particulares), em suma, aquele que só fica com a sua parte dos bens, explica Aristóteles, e com toda a sua parte dos males. A justiça situa-se inteira nesse duplo respeito à legalidade, na Cidade, e à igualdade entre indivíduos: “o justo é o que é conforme a lei e o que respeita a igualdade, e o injusto o que é contrário à lei e o que falta com a igualdade.”
A justiça, lemos em Platão, é o que reserva a cada um sua parte, seu lugar, sua função, preservando assim a harmonia hierarquizada do conjunto. Seria justo dar a todos as mesmas coisas, quando eles não têm nem as mesmas necessidades nem os mesmos méritos? Exigir de todos as mesmas coisas, quando eles não têm nem as mesmas capacidades nem os mesmos encargos? Mas como manter então a igualdade, entre homens desiguais? Ou a liberdade, entre iguais?
Devemos então renunciar a nosso próprio interesse? Claro que não. Mas devemos submetê-lo à justiça, e não o contrário. Senão? Senão, contente-se com ser rico, responde Alain, e não tente ainda por cima ser justo.
A justiça é a igualdade, mas a igualdade dos direitos, sejam eles juridicamente estabelecidos ou moralmente exigidos. A justiça é uma condição de igualdade, à qual nossas trocas devem submeter-se.
Diante do desmedido da caridade, para a qual o outro é tudo, diante do desmedido do egoísmo, para o qual o eu é tudo, a justiça se mantém na medida que sua balança simboliza, em outras palavras, no equilíbrio ou na proporção: a cada um sua parte, nem de mais nem de menos, como diz Aristóteles,
Em outras palavras, é chamado justo “quem tem uma vontade constante de atribuir a cada um o que lhe cabe”.

Pequeno tratado das grande virtudes, Andre Comte-Sponville

21 de dezembro de 2010

A Espiritualidade no sexo

“O fato dos seres humanos serem, em sua essência, profunda e pessoalmente identificados com a sua sexualidade faz com que a questão da santidade sexual esteja intimamente ligada à integridade espiritual. Por boas razoes, os antigos e muitas pessoas envolvidas com a Nova Era hoje consideram a experiência sexual como essencialmente religiosa. Ela inclui anseio, fome por união, abandono e êxtase (literalmente tirar uma pessoa “para fora de sua existência”).


Quando Deus criou a humanidade, ele a fez homem e mulher à sua imagem. O próprio Deus é uma comunidade de amor – Pai, Filho e Espírito Santo. Para expressar em linguagem humana o mistério dessa união, Agostinho descreve Deus como Amante, Amado e o Próprio Amor. Assim, por incrível que possa parecer Deus ama Deus.


Mas porque Deus é amor, ele fez uma criatura que jamais poderia ser como Deus ou refletir sua natureza sem se relacionar. Deus criou este desejo básico pelo outro a fim de que sabermos que não fomos feitos para viver individualmente e em isolamento, mas em comunidade. Homens e mulheres por si mesmos, que sejam casados ou solteiros, não são imagem de Deus, mas somente homens em relação a mulheres e mulheres em relação a homens. Somos como Deus em nossa necessidade de sermos pessoas em comunhão sem perdermos a nossa identidade. O desejo sexual expressa a imagem e semelhança de Deus dentro de nós.


A união para a qual somos atraídos não é o impulso de unir-se – torna-se um com o outro de modo que a nossa identidade se perca, como uma gota d’agua no oceano. Ao contrario, trata-se de um apetite por uma comunhão, imersão mutua, uma unidade obtida não a despeito da diversidade, mas por causa dela. A relação sexual é um forte símbolo disso – a penetração mutua de pessoas. Eu enfatizo pessoas porque não fazemos sexo com corpos, mas com pessoas como um todo.


O ato sexual é tão profundo e significativo na vida que o nosso Deus infinitamente sábio criou um único contexto para a sua completa expressão: uma aliança vitalícia desfrutada na companhia mutua do matrimonio.


Todas as relações interpessoais são necessariamente arriscadas e serias. O entregar-se um ou outro de corpo e alma, raramente é algo isento de perigos... Quer saibamos ou não, quando somos sexualmente ativos, votamos com a nossa genitália em prol de nossa própria substituição ou morte. Sexo seguro é uma autoilusão de almas superficiais."

Retirado do livro “ A espiritualidade na pratica” R Paul Stevens

12 de dezembro de 2010

A coragem

A coragem, como superação do medo, é uma característica marcante e valorizada por varias culturas em todos os tempos. Quem não idolatra o herói que é capaz de correr vários riscos pela mocinha? Entretanto, esta admiração universal não garante por si só o status de virtude nem à coragem e nem à outra característica humana. Alem disso, a coragem pode servir tanto para o bem quanto para o mal. Por isso, o que leva a coragem ao patamar de virtude para Comte-Sponville é o fato dela se colocar a serviço do outro de forma altruísta e generosa. Para tanto não se nega a existência do medo mas este é superado pela vontade altruísta de fazer o bem a quem dele necessitar.
Em suas próprias palavras: “O que estimamos, na coragem, e que culmina no sacrifício de si, seria, pois, em primeiro lugar, o risco aceito ou corrido sem motivação egoísta, em outras palavras, uma forma, se não sempre de altruísmo, pelo menos de desinteresse, de desprendimento, de distanciamento do eu”
“Já não é a coragem dos durões, é a coragem dos doces, e dos heróis.”
“Um deus não precisaria dela (da coragem). Nem um sábio, talvez, se só vivesse nos bens imortais ou eternos evocados por Epicuro ou Spinoza. Mas isso não é possível, e é por isso que, de novo, precisamos de coragem. Coragem para durar e agüentar, coragem para viver e para morrer, coragem para suportar, para combater, para enfrentar, para resistir, para perseverar… Spinoza chama de firmeza de alma (animositas) esse “desejo pelo qual cada um se esforça por conservar seu ser sob o exclusivo ditame da razão”. Mas a coragem está no desejo, não na razão; no esforço, não no ditame. Trata-se sempre de perseverar em seu ser (é o que Éluard chamará de “o duro desejo de durar”), e toda coragem é feita de vontade.”

Fonte: Pequeno tratado das grandes virtudes, Andre Comte-Sponville

29 de novembro de 2010

Temperança

A temperança é a capacidade de nos contermos em nossos desejos mais primários, sabendo que o equilíbrio pode nos levar mais facilmente à felicidade do que a intemperança. Lembra-nos o apostolo Paulo: “Todas as coisas me são licitas mas nem todas me convem, todas as coisas me são licitas mas não me deixarei dominar por nenhuma delas” Esta virtude capacita o individuo a ter poder sobre seus desejos ao invés de ser dominado por eles. Virtude exclusiva dos sábios? Talvez, mas nada impede que nós pobres mortais nos esforcemos para alcançá-la.
Para Andre Comte-Sponville a temperança não nos leva a desfrutar menos os prazeres da vida mas garante um desfrute mais puro e pleno. Segundo ele:
“A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade.
Que prazer é fumar, quando podemos prescindir de fumar! Beber, quando não somos prisioneiros do álcool! Fazer amor, quando não somos prisioneiros do desejo! Prazeres mais puros, porque mais livres. Mais alegres, porque mais bem controlados. Mais serenos, porque menos dependentes. É fácil? Claro que não. É possível? Nem sempre, sei do que estou falando, nem para qualquer um. É nisso que a temperança é uma virtude, isto é, uma excelência: ela é aquela cumeada, dizia Aristóteles, entre os dois abismos opostos da intemperança e da insensibilidade, entre a tristeza do desregrado e a do incapaz de gozar, entre o fastio do glutão e o do anoréxico.
O intemperante é um escravo, mais subjugado ainda por transportar em toda parte seu amo consigo. Prisioneiro de seu corpo, prisioneiro de seus desejos ou de seus hábitos, prisioneiro de sua força ou de sua fraqueza.
Como seríamos felizes uma vez que somos insatisfeitos? E como seríamos satisfeitos uma vez que nossos desejos não têm limites.
A temperança é um meio para a independência, assim como esta é um meio para a felicidade. Ser temperante é poder contentar-se com pouco; mas não é o pouco que importa: é o poder, e é o contentamento.
A temperança – como a prudência e como todas as virtudes, talvez – pertence, pois, à arte de desfrutar; é um trabalho do desejo sobre si mesmo, do vivo sobre si mesmo. Ela não visa superar nossos limites, mas respeitá-los.
Pobre Dom Juan, que necessita de tantas mulheres! Pobre alcoólatra, que precisa beber tanto! Pobre glutão, que precisa comer tanto!
A temperança intensifica seu prazer, quando o prazer está presente, e faz as vezes deste, quando não está. Portanto, ele sempre está, ou quase sempre. Que prazer estar vivo! Que prazer não carecer de nada! Que prazer ser senhor de seus prazeres!
O melhor, não o mais, é o que o atrai e que basta à sua felicidade..
Não é uma virtude excepcional, como a coragem (tanto mais necessária, ao contrário, quanto mais difíceis os tempos), mas uma virtude comum e humilde: virtude não de exceção mas de regra, não de heroísmo mas de comedimento.
Santo Tomás bem viu que essa virtude cardeal, embora menos elevada do que as outras três (a prudência é a mais necessária, a coragem e a justiça as mais admiráveis), prevalecia muitas vezes sobre elas pela dificuldade.
É que a temperança tem por objeto os desejos mais necessários à vida do indivíduo (beber, comer) e da espécie (fazer amor), que são também os mais fortes e, portanto, os mais difíceis de dominar.
Isso quer dizer que não se trata de suprimi-los – a insensibilidade é um defeito -, mas no máximo, e tanto quanto possível, controlá-los (no sentido em que se fala em inglês de self-control), de regrá-los (como se acerta um balé ou se regula um motor), de mantê-los em equilíbrio, em harmonia ou em paz. A temperança é uma regulação voluntária da pulsão de vida, uma afirmação sadia de nosso poder de existir, como diria Spinoza, em especial do poder de nossa alma sobre os impulsos irracionais de nossos afetos ou de nossos apetites. A temperança não é um sentimento, é um poder, isto é, uma virtude. Ela é “a virtude que supera todos os gêneros de embriaguez”, dizia Alain, e deve, portanto, superar também a embriaguez da virtude, e de si mesma – e é aí que ela se aproxima da humildade.

25 de novembro de 2010

Prudência

A prudência ou o bom-senso é a terceira virtude apresentada por Andre Comte-Sponville no Pequeno tratado das grandes virtudes. Pra mim ela pode ser considerada a mãe de todas as virtudes porque o grande segredo da vida é encontrar o equilíbrio que somente a prudência nos possibilitará. Segue abaixo trechos retirados do referido capitulo:
“A prudência é uma das quatro virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média. É a mais esquecida, talvez. Para os modernos pertence menos à moral do que à psicologia, menos ao dever do que ao cálculo. Kant já não via nela uma virtude: é apenas amor a si esclarecido ou hábil, explicava, não condenável, decerto, mas sem valor moral e sem outras prescrições que não sejam hipotéticas.
Santo Tomás bem mostrou que, das quatro virtudes cardeais, a prudência é a que deve reger as outras três: a temperança, a coragem e a justiça, sem ela, não saberiam o que se deve fazer, nem como; seriam virtudes cegas ou indeterminadas (o justo amaria a justiça sem saber como, na prática, realizá-la, o corajoso não saberia o que fazer de sua coragem, etc.), assim como a prudência, sem elas, seria vazia ou não seria mais que habilidade.
A prudência não é nem o medo nem a covardia. Sem a coragem, ela seria apenas pusilânime, assim como a coragem, sem ela, seria apenas temeridade ou loucura.
“A prudência”, dizia santo Agostinho, “é um amor que escolhe com sagacidade.” Mas o que ela escolhe? Não, decerto, seu objeto (o desejo se encarrega disso), mas os meios de alcançá-lo ou protegê-lo. Sagacidade das mães e das amantes, sabedoria do amor louco. Elas fazem o que se deve, como se deve, pelo menos o que elas julgam como tal (quem diz virtude intelectual diz risco de erro), e dessa preocupação nasceu a humanidade – a delas, a nossa. O amor as guia; a prudência as ilumina.
É imprudente ouvir apenas a moral, e é imoral ser imprudente.”

20 de novembro de 2010

Felicidade realista

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor.. não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado.
E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno.
Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade.
Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo.
Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça de que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração.
Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade...

Martha Medeiros

18 de novembro de 2010

Fidelidade, por Andre-Comte Sponville

“Que há casais fiéis e outros não, é uma verdade de fato, que não parece, ou já não parece, atingir o essencial. Pelo menos se entendemos por fidelidade, nesse sentido restrito, o uso exclusivo, e mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Por que só amaríamos uma pessoa? Por que só desejaríamos uma pessoa? Ser fiel a suas idéias não é (felizmente!) ter uma só idéia; nem ser fiel em amizade supõe que tenhamos um só amigo. Fidelidade, nesses domínios, não é exclusividade. Por que deveria ser diferente no amor? Em nome do que poderíamos pretender o desfrute exclusivo do outro? É possível que isso seja mais cômodo ou mais seguro, mais fácil de viver, talvez, no fim das contas, mais feliz, e, enquanto houver amor, até acredito que seja. Mas nem a moral nem o amor parecem-me estar presos a isso por princípio. Cabe a cada um escolher, de acordo com sua força ou com suas fraquezas. A cada um, ou antes a cada casal: a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me parece menos traído pelo amor (pelo outro amor) do que pela mentira. Outros pensarão o contrário, talvez eu também, em outro momento. Não é isso o essencial, parece-me. Há casais livres que são fiéis, à sua maneira (fiéis ao seu amor, fiéis à sua palavra, fiéis à sua liberdade comum…). E tantos outros, estritamente fiéis, tristemente fiéis, em que cada um dos dois preferiria não o ser… O problema, aqui, é menos a fidelidade do que o ciúme, menos o amor do que o sofrimento. Não é mais meu tema. Fidelidade não é compaixão. Serão duas virtudes? Sem dúvida, mas, justamente: são duas. Não fazer sofrer é uma coisa; não trair é outra, e é o que se chama fidelidade. O essencial é saber o que faz com que um casal seja um casal.

O simples encontro sexual, por mais repetido que seja, não bastaria evidentemente para tanto. Mas também não a simples coabitação, por mais duradoura que seja. O casal, no sentido em que uso a palavra, supõe tanto o amor como a duração. Supõe, portanto, a fidelidade, pois o amor só dura sob a condição de prolongar a paixão (breve demais para fazer um casal, suficiente para desfazêlo!) por memória e vontade. É o que significa o casamento, sem dúvida, e que o divórcio vem interromper. Se bem que… Uma amiga minha, divorciada, depois recasada, dizia-me que permanecia fiel, em alguma coisa, a seu primeiro marido. “Quero dizer”, explicou-me, “ao que vivemos juntos, a nossa história, a nosso amor… Não quero renegar tudo isso.” Nenhum casal, com maior razão, poderia durar sem essa fidelidade, em cada um, à sua história comum, sem esse misto de confiança e de gratidão pelo qual os casais felizes (há alguns) se tornam tão comoventes, ao envelhecer, mais até que os namorados que começam, que, na maioria dos casos, ainda não fazem mais que sonhar seu amor. Essa fidelidade me parece preciosa, mais que a outra, e mais essencial ao casal. Que o amor se aplaque ou decline, é sempre o mais provável, e é bobagem afligir-se com isso. Mas quer se separe, quer continue a viver junto, o casal só continuará sendo casal por essa fidelidade ao amor recebido e dado, ao amorpartilhado e à lembrança voluntária e reconhecida desse amor. Fidelidade é amor fiel, dizia eu, e assim é também o casal, mesmo o casal “moderno”, mesmo o casal “livre”. A fidelidade é o amor conservado ao que aconteceu, o amor ao amor, no caso, amor presente (e voluntário, e voluntariamente conservado) ao amor passado. Fidelidade é amor fiel, e fiel antes de tudo ao amor.

Como eu poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem pode jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção, os encargos ou as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não reconhecer o que houve.Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a esse amor que vivemos.

O amor infiel não é o amor livre: é o amor esquecidiço, o amor renegado, o amor que esquece ou detesta o que amou e que, portanto, se esquece ou se detesta. Mas será isso ainda amor?

Ama-me enquanto desejares, meu amor; mas não nos esqueça."

Extraido do livro "Pequeno tratado das grandes virtudes"

6 de novembro de 2010

A elegância

Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara:
a Elegância do Comportamento.
É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza. É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.
É uma elegância desobrigada.
É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.
É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas, por exemplo. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.
É possível detectá-la em pessoas pontuais.
Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.
Oferecer flores é sempre elegante.
É elegante não ficar espaçoso demais .
É elegante, você fazer algo por alguém, e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para o fazer...
Porém, é elegante reconhecer o esforço, a amizade e as qualidades dos outros.
É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.
É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.
É elegante retribuir carinho e solidariedade.
É elegante o silêncio, diante de uma rejeição...
Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto.
Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. É elegante a gentileza.
Atitudes gentis falam mais que mil imagens... Abrir a porta para alguém é muito elegante... Dar o lugar para alguém sentar... é muito elegante...
Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma...
Oferecer ajuda é muito elegante... Olhar nos olhos ao conversar é essencialmente elegante...
Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas tentar imitá-la é improdutivo . A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social.

2 de novembro de 2010

O amor prova a Espiritualidade

Por Ronaldo Lidório

Nestes dias tenho pensado sobre os essenciais do Cristianismo. Estou convicto que os periféricos da vida e ministério podem facilmente nos desviar de praticarmos um Cristianismo bíblico e simples, fazendo com que nossa atenção, energias, dons e relacionamentos se desgastem nas notas de rodapé de uma religiosidade quase vazia. Há diversos essenciais na vida Cristã. Um deles é o amor.

Preocupo-me quando apregoamos uma verdadeira espiritualidade mas não amamos. Quando a Igreja não consegue chorar com os que choram ou quando nossos relacionamentos vão se tornando cada vez menos sinceros e mais utilitários. Preocupo-me quando o mundo age com mais graça e misericórdia com o caído do que o povo de Deus o faz. Preocupo-me quando a Igreja passa a definir sua experiência de fé a partir de seus ajuntamentos solenes e não dos seus relacionamentos diários. Preocupo-me quando não amamos.

Ao escrever a primeira carta aos Coríntios Paulo reserva os capítulos doze e quatorze para expor sobre os dons espirituais, pois era um assunto de relevância e necessidade. Entre os dois capítulos sobre dons espirituais Paulo enxerta um dos textos mais definidores da nossa fé, o capítulo treze, que nos apresenta a centralidade do amor na vivência Cristã. Mostra-nos, assim, a possibilidade de sermos uma Igreja com aparência, forma e discurso espiritual, mas de fato carnal. Com a presença de dons espirituais, mas sem o essencial do Cristianismo. A mensagem neste capítulo é clara: o amor é superior aos dons.

Sempre leio com temor os três primeiros versículos deste capítulo, pois confrontam minha vida ao afirmar que podemos ter dons espirituais, tamanha fé ou praticar toda sorte de ações sociais, porém sem amor nada haverá que, ao fim, possa ser aproveitado. Nem sermões bem preparados ou liturgias cúlticas. Nem ações missionárias ou grandes projetos sociais para ajudar o necessitado. O amor, aqui exposto, não é apenas superior aos dons, mas um marcador de nossa identidade Cristã. Somos dEle quando buscamos amar.

Isto significa que minha vida em Cristo não pode ser definida puramente pelos dogmas que entendo e aceito, por um lado, nem mesmo pelas experiências de espiritualidade que vivencio, por outro. Sem amor serão vazios de significado. Minha vida em Cristo é definida pela presença do amor que não apenas é essencial como também é automanifesto. Para nosso temor e tremor o Espírito descreve neste capítulo que o amor é perceptível, ou seja, ele deixa marcas. Ele é prático, notável e visível. Ele é paciente, esperando pela hora oportuna para o outro. É benigno, fazendo com que a dor do vizinho seja também a nossa. Não arde em ciúmes, portanto evita comparações e se nega a criticar o próximo. Torna-se, assim, impossível amar sem que as marcas do amor sejam vistas pelos que passam pela mesma estrada que nós.

Precisamos amar o próximo o mínimo para não criticá-lo. Este próximo, o outro, diferente de nós, é nossa base de testes, o cenário onde devemos aprender a praticar o ato mais sublime que vem do Pai, e somente dEle.

Tenho percebido que o amor prova a espiritualidade. Somos naturalmente seres construtores de máscaras e tais máscaras tendem a esconder aquilo que é nitidamente carnal e vergonhoso. Assim, usando máscaras bem elaboradas, podemos falar sobre fé sem de fato crer; pregar contra o pecado sem intimamente repudiá-lo; expor sobre o amor e na manhã seguinte prejudicar o irmão. Um mecanismo que claramente prova nossa espiritualidade são os atos de amor.

O oposto do amor também é evidente. Gera incrível tolerância com nossas próprias limitações e fraquezas enquanto torna-se gravemente intolerante com o próximo. Desta forma, se alguém conversa com formalidade, é antipático, mas se nós o fazemos somos respeitosos. Se alguém brada ao pregar, está sendo artificial. Se nós bradamos é sinal de espiritualidade. Se alguém não faz, é preguiçoso, mas se nós não fazemos somos ocupados. Se alguém contrai uma dívida é irresponsável. Se nós nos endividamos é porque recebemos pouco. Se alguém discorda é soberbo, mas se nós discordamos somos criteriosos. Se alguém critica, ele o faz por estar tomado de inveja ou ciúmes. Se nós criticamos estamos sendo zelosos. Se alguém repete um sermão, está sendo desleixado, mas se nós o fazemos Deus quer falar novamente ao seu povo. Se alguém erra, era de se esperar vindo dele. Se nós erramos, errar é humano. Se alguém cai, suas atitudes carnais já indicavam isto. Se nós caímos, o inimigo preparou-nos uma armadilha. Se alguém brinca, está sendo mundano. Se nós brincamos somos informais. Se alguém ofende no falar é descontrolado. Se nós o fazemos somos sinceros. Sim, a ausência de amor falsifica a vida cristã e um dos claros sinais é a grave intolerância com o próximo e a permissividade conosco.

Neste precioso décimo terceiro capítulo da primeira carta aos Coríntios, do versículo nove em diante, vemos que o amor é um aprendizado. Eu era menino e agora sou homem, via de forma obscura, agora vejo claramente. Ou seja, amar é um processo, uma caminhada. Nós não nascemos amando.

Para amarmos devemos pedir que Ele nos ajude. O salmista no Salmo cento e dezenove afirma que andará nos caminhos do Senhor quando Ele dilatar o seu coração. Precisamos de corações dilatados, abertos, prontos para amar. Peçamos ao Pai, pensando nos cenários diários de nossas vidas, dizendo: ensina-me a amar. Para investirmos na jornada do amor creio que é preciso nos desapegar daquilo que é incompatível com o amor. John Edwards, em seu livro Afeto Religioso, nos fala sobre a incompatibilidade do amor com as palavras de agressão. Devemos nos desapegar daquilo que pretere e cerceia o amor em nossas vidas. Jamais amaremos enquanto nossa agenda diária estiver repleta de competitividade, ciúmes, falso zelo, comparações desnecessárias, soberba e agressões.

28 de outubro de 2010

Polidez

A polidez pode ser considerada a primeira virtude e a origem de todas porque pode ser ensinada à criança antes dela ser capaz de aprender a moral. Antes de aprender o que é ético, a criança aprende o que “é feio” e “errado”. Portanto na mais tenra idade já pode aprender a ser gentil. Kant afirmou “que o homem só pode tornar-se homem pela educação”. É a disciplina que humaniza o homem.

“A polidez”, observava La Bruyère, “nem sempre inspira a bondade, a eqüidade, a complacência, a gratidão; pelo menos dá uma aparência disso e faz o homem parecer por fora como deveria ser por dentro.”
“Portanto, a polidez não é uma virtude, mas como que o simulacro que a imita (nos adultos) ou que a prepara (nas crianças).

O saber-viver não é a vida; a polidez não é a moral. Mas não quer dizer que não seja nada. A polidez é uma pequena coisa, que prepara grandes coisas. É um ritual, mas sem Deus; um cerimonial, mas sem culto; uma etiqueta, mas sem monarca. Forma vazia, que só vale por esse próprio vazio. Uma polidez cheia de si, uma polidez que se leva a sério, uma polidez que crê em si é uma polidez iludida por suas maneiras e que falta, por isso, às regras que ela mesma prescreve. A polidez não é suficiente, e é impolido ser suficiente.”

Fonte: “Pequeno tratado das grandes virtudes” Andre Comte-Sponville

25 de outubro de 2010

Entre a oração e poesia

Por José Barbosa Junior

Acho que hoje entendi porque alguns cristãos rezam a Ave-Maria todos os dias às seis da tarde. 
Não! Não quero nenhuma explicação correta sobre isso: o entendimento que veio hoje me basta, mesmo que não seja “verdadeiro”. Ele é certeza em minha alma.
E isto se tornou claro e límpido ao ver o pôr-do sol hoje, trazendo ao céu cores deslumbrantes, em mais um fim de tarde de inverno, daqueles de fazer corar de raiva qualquer pintor por não conseguir cores suficientes para descrever este momento em suas telas.Seis da tarde é a hora da ausência, da saudade, do medo.

É a hora do vazio que fica pela imenso desejo do reencontro com o criador “ao cair da tarde” (obrigado, Rubem Alves!), é a hora do desespero silente, da nostalgia esmagadora, do encontro que já não acontece mais...

O pôr-do-sol me desnuda, me coloca só... sinto falta, sinto A falta, aquela que, ao encontrar, minha alma descansa tranqüila.

Mas vem também o medo... o fim da tarde anuncia a noite, e a noite, recheada pela ausência do encontro não realizado, traz a angústia, o pavor... daí justificam-se todas as rezas e orações feitas nesse horário... é o medo da solidão.

A noite é símbolo da morte, talvez por isso o “rogai por nós, agora e na hora da nossa morte” seja a oração a ser feita ao entardecer por aqueles que tem medo de morrer...

Hoje entendo porque o próprio criador se encontrava com o homem um pouquinho antes do anoitecer: pra que sua presença fosse sentida durante a noite.. . e o medo fosse embora... e ele dormisse tranqüilo.

Não foi à toa que um poeta, repleto dessa certeza escreveu que em paz ele se deitaria e dormiria... o poeta tinha a certeza da presença!

E é aí que brota a diferença... quem tem medo, faz a oração; quem tem a certeza da presença, mesmo ausente, faz poesia.

A poesia nasce da saudade, da ausência-presente, da certeza de que mesmo não visível, há algo de belo na noite... e isso só faz sentido quando o pôr-do-sol não é mais o prenúncio do abandono, mas a ausência tornada em poesia. É por isso que a noite é dos poetas e dos cantadores... eles nunca estão abandonados, mesmo quando solitários.

No coração do poeta há sempre o reencontro com a beleza, com o Criador, com as cores que ele, como pintor de palavras, transforma em versos...

O poeta não teme a morte que a noite traz... o poeta crê na ressurreição, por isso a noite não lhe mete medo, mas lhe inspira... por isso à noite é que os casais se enamoram ao luar... o amor dos namorados é o anúncio de que a vida sempre recomeça após a morte... é a ressurreição de tudo!

Não foi à toa que Nietzsche disse que “só onde há túmulos é que pode haver ressurreição”... é na ausência que nasce a saudade, e é na saudade que brota a poesia. A saudade da vida que o dia muitas vezes apaga, mas que a noite traz com toda a força... é por isso que os jovens casais se encantam com a lua... ela reflete a luz perdida, do dia que foi embora... a lua é envolta no mistério...

E só há poesia onde há o mistério...
Já faz tempo que troquei a oração pela poesia... porque é nela que me reencontro com o Criador. É na poesia que, em mim, o verbo se faz carne... e o mistério se faz revelação!


José Barbosa Junior – 05/07/2010 – às 18:00h

24 de outubro de 2010

As três peneiras

O mundo seria bem melhor se conseguisemos ao menos utilizar estas "peneiras" antes de falarmos algo:

Augustus procurou Sócrates e lhe disse:
- Sócrates, preciso contar-lhe algo sobre alguém! Você não imagina o que me contaram a respeito de...
Nem chegou a terminar a frase, quando Sócrates ergueu os olhos do livro que lia e perguntou:
- Espere um pouco Augustus. O que vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras?
- Peneiras? Que peneiras?
- Sim. A primeira, Augustus, é a da verdade. Você tem certeza de que o que vai me contar é absolutamente verdadeiro?
- Não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram!
- Então suas palavras já vazaram a primeira peneira. Vamos então para a segunda peneira: A bondade.
O que vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?
- Não, Sócrates! Absolutamente, não!
- Então suas palavras vazaram, também, a segunda peneira. Vamos agora para a terceira peneira: A necessidade.
Você acha mesmo necessário contar-me esse fato, ou mesmo passá-lo adiante?
Resolve alguma coisa? Ajuda a alguém? Melhora alguma coisa?
- Não, Sócrates... Passando pelo crivo das três peneiras, compreendi que nada me resta do que iria contar.
E Sócrates sorrindo concluiu:
- Se passar pelas três peneiras, conte! Tanto eu, quanto você e os outros iremos nos beneficiar.
Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos.
Devemos ser sempre a estação terminal de qualquer comentário infeliz! Da próxima vez que ouvir algo, antes de ceder ao impulso de passá-lo adiante submeta-o ao crivo das três peneiras, porque:

Pessoas sábias falam sobre idéias;

Pessoas comuns falam sobre coisas;

Pessoas medíocres falam sobre pessoas.

19 de outubro de 2010

Sucesso, por Nizan Guanaes

"Dizem que conselho só se dá a quem pede. E, se vocês me convidaram para paraninfo, estou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns. Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão alguns, que julgo valiosos.


      Não paute sua vida nem sua carreira pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo o coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha. Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica pronto na vida foi antes construído na alma. A propósito disso, lembro-me de uma passagem extraordinária que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: "Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo". E ela responde: "Eu também não, filho". Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo apenas que pensar e realizar tem trazido mais fortuna do que pensar em fortuna.                                







      Meu segundo conselho: pense no seu país. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal, é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento, não chega a viver como homem. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu.







        Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: "Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito". É exatamente isso que está escrito na carta de Laudicéia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É preferível o erro à omissão; o fracasso, ao tédio; o escândalo, ao vazio. Porque já vi grandes livros e filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso. Colabore com seu biógrafo: faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido.





      Tenho consciência que cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma evolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, caminhando sempre com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra.
      Não use Rider: não dê férias a seus pés.
      Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: "Eu não disse? Eu sabia!"
      Toda família tem um tio batalhador e bem de vida que, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo o que faria, se fizesse alguma coisa.
      Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta à noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar. Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. .....Das 8 às 12, das 12 às 8, e mais, se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio, e constrói prodígios.
       O Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito que aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas que trabalham de sol a sol construíram, em menos de 50 anos, a 2ª maior megapotência do planeta, enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores impotências do trabalho.
      Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas; mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão.
       E isso se chama "sucesso".


Discurso do publicitário Nizan Guanaes na formatura da FAAP

18 de outubro de 2010

Uma mulher chamada guitarra


Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam un mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos. O violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina - viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo - o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres- contrabaixo.
Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em beneficio de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.
Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.
Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado - contra o peito - lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua. 
Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca!
Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seu tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei: um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

Extraido do livro "Para viver um grande amor" de Vinicius de Moraes

17 de outubro de 2010

Salmos 103

1 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome.
2 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios.
3 É ele quem perdoa todas as tuas iniqüidades, quem sara todas as tuas enfermidades,
4 quem redime a tua vida da cova, quem te coroa de benignidade e de misericórdia,
5 quem te supre de todo o bem, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia.
6 O Senhor executa atos de justiça, e juízo a favor de todos os oprimidos.
7 Fez notórios os seus caminhos a Moisés, e os seus feitos aos filhos de Israel.
8 Compassivo e misericordioso é o Senhor; tardio em irar-se e grande em benignidade.
9 Não repreenderá perpetuamente, nem para sempre conservará a sua ira.
10 Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui segundo as nossas iniqüidades.
11 Pois quanto o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua benignidade para com os que o temem.
12 Quanto o oriente está longe do ocidente, tanto tem ele afastado de nós as nossas transgressões.
13 Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem.
14 Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó.
15 Quanto ao homem, os seus dias são como a erva; como a flor do campo, assim ele floresce.
16 Pois, passando por ela o vento, logo se vai, e o seu lugar não a conhece mais.
17 Mas é de eternidade a eternidade a benignidade do Senhor sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos,
18 sobre aqueles que guardam o seu pacto, e sobre os que se lembram dos seus preceitos para os cumprirem.
19 O Senhor estabeleceu o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo.
20 Bendizei ao Senhor, vós anjos seus, poderosos em força, que cumpris as suas ordens, obedecendo à voz da sua palavra!
21 Bendizei ao Senhor, vós todos os seus exércitos, vós ministros seus, que executais a sua vontade!
22 Bendizei ao Senhor, vós todas as suas obras, em todos os lugares do seu domínio! Bendize, ó minha alma ao Senhor!

16 de outubro de 2010

A definição biblica de casamento

"O casamento tem sofrido tantas ameaças no mundo ocidental de hoje que é bom relembrarmos sua base bíblica. Em Gênesis 2.24 encontramos a definição bíblica para casamento; ela é ainda mais importante porque foi endossada pelo Senhor Jesus Cristo (Mc 10.7). Este é um relacionamento com cinco caracteristicas especiais:
1. Heterossexual.O casamento é a união entre um homem e uma mulher. Uma parceria homossexual jamais poderá ser vista como uma alternativa legitima.
2. Monogâmico. "Um homem" e "uma mulher", ambos singular. A poligamia pode ter sido tolerada por algum tempo, na época do Antigo Testamento, mas a monogamia sempre foi o propósito de Deus, desde o principio.
3. Compromisso. Quando um homem deixa a casa de seus pais para se casar, ele deve "unir-se" à sua mulher, juntar-se a ela como cola (como sugere o texto equivalente no Novo Testamento). O divorcio deve ser permitido apenas em uma ou duas situações definidas. "Mas não foi assim desde o principio", Jesus insistiu (Mt 19.8). Alem disso, o que se perde com o divorcio é precisamente o compromisso que é fundamental para o casamento.
4. Publico. Antes de partir para o casamento é preciso "deixar" os pais e esse "deixar" indica que esta é uma ocasião social publica. A família, os amigos e a sociedade tem o direito de saber o que esta acontecendo.
5. Fisico. "Eles se tornarão uma só carne". Se por um lado, o casamento heterossexual é o unico contexto dado por Deus para a união sexual e a procriação, por outro, a união sexual é um elemento tão importante no casamento que a sua não consumação deliberada é, em muita sociedades, motivo para a sua anulação. Adão e Eva certamente não experimentaram nenhum constrangimento em relação ao sexo. "O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha"(Gn 2.25)."

Extraido do Devocionario "A Biblia toda o ano todo" de John Stott

14 de outubro de 2010

Salmo 118

 
 1 Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; porque a sua benignidade
   dura para sempre.

 2 Diga, pois, Israel: A sua benignidade dura para sempre.

 3 Diga, pois, a casa de Arão: A sua benignidade dura para sempre.

 4 Digam, pois, os que temem ao Senhor: A sua benignidade dura para
   sempre.

 5 Do meio da angústia invoquei o Senhor; o Senhor me ouviu, e me pôs
   em um lugar largo.

 6 O Senhor é por mim, não recearei; que me pode fazer o homem?

 7 O Senhor é por mim entre os que me ajudam; pelo que verei cumprido
   o meu desejo sobre os que me odeiam.

 8 É melhor refugiar-se no Senhor do que confiar no homem.

 9 É melhor refugiar-se no Senhor do que confiar nos príncipes.

10 Todas as nações me cercaram, mas em nome do Senhor eu as
   exterminei.

11 Cercaram-me, sim, cercaram-me; mas em nome do Senhor eu as
   exterminei.

12 Cercaram-me como abelhas, mas apagaram-se como fogo de espinhos;
   pois em nome do Senhor as exterminei.

13 Com força me impeliste para me fazeres cair, mas o Senhor me
   ajudou.

14 O Senhor é a minha força e o meu cântico; tornou-se a minha
   salvação.

15 Nas tendas dos justos há jubiloso cântico de vitória; a destra
   do Senhor faz proezas.

16 A destra do Senhor se exalta, a destra do Senhor faz proezas.

17 Não morrerei, mas viverei, e contarei as obras do Senhor.

18 O Senhor castigou-me muito, mas não me entregou à morte.

19 Abre-me as portas da justiça, para que eu entre por elas e dê
   graças ao Senhor.

20 Esta é a porta do Senhor; por ela os justos entrarão.

21 Graças te dou porque me ouviste, e te tornaste a minha salvação.

22 A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como
   pedra angular.

23 Foi o Senhor que fez isto e é maravilhoso aos nossos olhos.

24 Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos, e alegremo-nos
   nele.

25 Ó Senhor, salva, nós te pedimos; ó Senhor, nós te pedimos,
   envia-nos a prosperidade.

26 Bendito aquele que vem em nome do Senhor; da casa do Senhor vos
   bendizemos.

27 O Senhor é Deus, e nos concede a luz; atai a vítima da festa com
   cordas às pontas do altar.

28 Tu és o meu Deus, e eu te darei graças; tu és o meu Deus, e eu
   te exaltarei.

29 Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; porque a sua benignidade
   dura para sempre. a tua palavra.

12 de outubro de 2010

A sexualidade humana

"Uma bela verdade, claramente afirmada desde o primeiro capitulo da Bíblia é que a heterossexualidade é o propósito de Deus na criação e que homens e mulheres são iguais em dignidade e valor diante de Deus. Ambos foram criados à sua imagem, ambos foram abençoados e receberam a recomendação para serem fecundos, subjugar a terra e dominar sobre todas as suas criaturas. Assim, homens e mulheres igualmente trazem em si a imagem divina e partilham igualmente da administração da terra. Nada que tenha sido dito depois é capaz de destruir, muito menos contradizer, essa igualdade fundamental entre os sexos. Aquilo que a criação estabeleceu nenhuma cultura é capaz de destruir. É verdade, no entanto que igualdade não significa identidade. Embora os sexos sejam iguais, eles são diferentes; igualdade é plenamente compatível com complementaridade.
Embora a desobediencia humana e a queda tenham perturbado a sexualidade humana, a intenção de Deus é restaura-la e aprofunda-la através do evangelho. Assim Paulo pode escrever aos cristão da Galacia "Não há judeu nem grego, escravo, nem livre, homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus" (GL. 3.28). Isso não significa que em Cristo as diferenças etnicas, sociais, e sexuais são eliminadas. Não, homens permanecem homens e mulheres permanecem mulheres. Mas em Cristo quando temos um relacionamento pessoal com ele, nossas diferenças sexuais não constituem barreira à comunhão com Deus ou uns com os outros. Diante dele somos iguais, igualmente justificados pela fé e igualmente habitados pelo seu Espírito."


Extraido do devocionario "A biblia toda, o ano todo" John Stott"

11 de outubro de 2010

14 anos sem Renato Russo - que saudade!

Hoje faz 14 anos que Renato Russo nos deixou. Como todo gênio teve uma vida curta. Morreu com 36 anos. Conhecendo-o como o conhecia é realmente difícil imagina-lo vivendo uma vida longa e tranqüila. Renato se incomodava muito com os males do mundo e isso o deixava profundamente deprimido; alem disso ele mergulhava em todas as relações inteiramente e quando elas falhavam isso o angustiava mais do que aos seres normais.
Suas fraquezas (especialmente o alcoolismo) nada mais eram que subterfúgios para se “desligar” dos problemas do mundo, coisa que ele realmente não conseguia fazer. Ele realmente levava a vida muito a serio, e carregava sobre seus ombros um peso que nenhum ser humano é capaz de suportar. Felizes aqueles que conseguem entregar o seu fardo a quem realmente pode carregá-lo – Jesus Cristo. Infelizmente ao que parece Renato não teve este privilegio.
Não digo que ele seja meu “ídolo” pois como cristã não tenho ídolos – somente Deus é digno da minha adoração. Mas não posso negar o meu profundo amor pela pessoa de Renato Russo que com sua transparência e capacidade de traduzir os sentimentos de uma geração marcou indiscutivelmente a minha historia.
Então para relembrá-lo nada melhor do que trechos de suas poesias que realmente falam por si só e que continuam atuais:
 “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho outro tempo, temos todo tempo do mundo”
“Quem vai dizer o que você sentiu, quem vai dizer o que você pensou, quem vai dizer agora o que eu não fiz, como explicar pra você o que eu quis”
 “O senhor da guerra não gosta de crianças”
“As vezes parecia que era so improvisar e o mundo então seria um livro aberto, ate chegar o dia em que tentamos ter demais vendendo fácil o que não tinha preço”
“Um dia pretendo tentar descobrir, porque é mais forte quem sabe mentir. Não quero lembrar que eu minto também”
“Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade”
“Não esconda a tristeza de mim, todos se afastam quando o mundo está errado, quando o que temos é um catálogo de erros, quando precisamos de carinho, força e cuidado.”
“Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais; é uma dor que dói no peito, pode rir agora que estou sozinho, mas não venha me roubar”
“Queria ser como os outros, e rir das desgraças da vida; ou fingir estar sempre bem, ver a leveza das coisas com humor”
“Não me dê atenção, mas obrigado por pensar em mim”

9 de outubro de 2010

Vinícius de Moraes - Para viver um grande amor



Para Viver Um Grande Amor

Vinicius de Moraes


Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.


Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

Conheça a vida e a obra do autor em "Biografias".

8 de outubro de 2010

Filosofia Bíblica

Eclesiastes 9


1 Deveras me apliquei a todas estas coisas para claramente entender tudo isto: que os justos, e os sábios, e os seus feitos estão nas mãos de Deus; e, se é amor ou se é ódio que está à sua espera, não o sabe o homem. Tudo lhe está oculto no futuro.

2 Tudo sucede igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao perverso; ao bom, ao puro e ao impuro; tanto ao que sacrifica como ao que não sacrifica; ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.

3 Este é o mal que há em tudo quanto se faz debaixo do sol: a todos sucede o mesmo; também o coração dos homens está cheio de maldade, nele há desvarios enquanto vivem; depois, rumo aos mortos.

4 Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto.

5 Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento.

6 Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.

7 Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras.

8 Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça.

9 Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol.

10 Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.

11 Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes, a vitória, nem tampouco dos sábios, o pão, nem ainda dos prudentes, a riqueza, nem dos inteligentes, o favor; porém tudo depende do tempo e do acaso.

12 Pois o homem não sabe a sua hora. Como os peixes que se apanham com a rede traiçoeira e como os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enredam também os filhos dos homens no tempo da calamidade, quando cai de repente sobre eles.

6 de outubro de 2010

Sexo e amor

Recentemente relendo a historia de Freddie Mercury me vi às voltas com uma questão intrigante de sua biografia: a sua relação com Mary Austin.
Pra quem não conhece a historia, Freddie e Mary se conheceram em 1974 e se tornaram namorados. Em pouco tempo foram viver juntos e assim permaneceram por 6 anos. Ela esteve presente em todo o inicio/formação da banda Queen. O relacionamento acabou quando Freddie revelou que era bissexual. Aqui já começa a minha reflexão: qualquer mulher comum se sentiria no mínimo humilhada e procuraria distância deste homem; mas embora tenha ido viver sua vida Mary sempre manteve os laços de amizade com Freddie estando presente ao seu lado ate o fim da vida dele em 1991. Freddie por outro lado, mesmo tendo diversos parceiros ao longo da sua vida, deu varias declarações dizendo que o amor da vida dele (Love of my life foi escrita pra ela) era ela. A prova disso é que foi ela quem herdou a mansão em que ele vivia em Londres a qual ele deixou em testamento pra ela. Aqui temos outra situação intrigante: se ele a amava porque não se satisfazia sexualmente com ela?
Claro que este texto não pretende dar explicações pra algo que parece ser mesmo inexplicável. O que pretendo é levantar algumas reflexões a respeito das varias faces do amor. O que mais me chama atenção é que embora vários aspectos desta relação estejam longe do propósito divino para uma relação, este amor que os unia se aproxima muito do amor “ágape” descrito em I Corintios 13. (4-8a), pelo menos da parte dela:
“O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece; não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta; O amor jamais acaba;”
O filosofo contemporâneo Andre Comte-Sponville dedica o ultimo capitulo do seu livro “Pequeno tratado das grandes virtudes” ao amor. Mesmo considerando uma virtude controversa já que segundo ele “não amamos o que queremos, mas o que desejamos”, o autor assume que o amor é sem duvida a maior das virtudes. Este é o maior capitulo do livro e por isso obviamente não pode ser esgotado em um artigo. Mas ele aponta as três faces do amor que podem nos dar subsídios para entender historias como a de Freddie Mercury e assim ampliar nosso horizonte sobre o amor.
Amor “Eros”: de acordo com Comte-Sponville este amor é um sonho inatingível de fusão entre dois corpos e o desejo por algo que lhe falta. É sem duvida o amor mais forte e a carência é sua essência. Ama-se o que não se tem e quando se tem se entedia. É o que chamamos de paixão.
Amor “Philia” é a alegria somada ao prazer (Spinoza). É amar pelo prazer de amar, sem sentir falta de nada, nem da presença ou da reciprocidade do outro. É regozijo, gratidão, força e leveza. É o que chamamos de amizade.
Amor “Ágape” é o amor divino que não é nem paixão, nem amizade; É o amor universal que ama desinteressadamente ate mesmo os inimigos e não precisa de justificativa para isso. É o amor que não usa a fraqueza do outro para afirmar sua força. Mas existe independentemente do valor do seu objeto. É o mais raro e o mais milagroso. É o que pode ser traduzido pobremente por caridade.
Voltando ao inicio do texto, como poderíamos entender esta relação entre Freddie e Mary? Qual face e/ou nível do amor não foi atingida? Ou será que a relação deles foi completa mesmo faltando alguma destas faces?
Como cristã sei que o amor perfeito vem de Deus e so alcançaremos a plenitude do amor vivendo Nele. Podemos então concluir que a falta da presença de Cristo limitou as possibilidades da relaçao de Freddie Mercury e Mary Austin. Mas é no minimo intrigante pensar que muitos casais chamados cristãos não conseguem desenvolver uma relação tão forte entre si!

4 de outubro de 2010

Dez principios para a interpretação da Biblia

Texto proferido numa palestra pelo prof. Byron E. Shafer que estão transcritos originalmente no manual, Biblia, iglesia, sexualidad y familia de autoria do Dr. Robin Smith e Dr. Jorge Maldonado:

1. Deus é maior que a Biblia. Existem muitas coisas a respeito dos mistérios de Deus que não entendemos;

2. A Biblia não pode e não deve ser "desculturalizada". Textos bíblicos não tem significado fora dos contextos nos quais forma escritos e sempre nos trazem principios para nossa vida cristã;

3. O cânon estabelecido tem dimensões de adaptabilidade. A voz de Deus numa passagem em particular está no contexto da voz de Deus e de seu plano, mas revela isso de formas diversas;

4. A Bíblia é um livro plural, que não apresenta uma única imagem de Deus e de seu plano, mas revela isso de formas diversas;

5. Uma pessoa não deve se aproximar da Biblia com o proposito de utiliza-la, de justificar-se ou de atacar os outros;

6. Deve-se aproximar-se da Biblia em oração, pois nossa interpretação tem de ser dirigida pelo Espirito Santo;

7. A Biblia deve ser lida na comunidade, pois as varias interpretações do povo de Deus dão equilibrio e corrigem as interpretações individuais;

8. A pessoa deve aproximar-se da Biblia com honestidade e humildade, com abertura e uma busca genuina de significado e uma identificação não só com os herois, mas tambem com os perversos;

9. A Biblia deve ser lida teologicamente, antes de moralmente. O leitor precisa partir do plano redentor de Deus, reconhecendo que Ele escolhe livremente pessoas em sua condição de pecado e continua operando por meio delas, quando ainda são pecadoras. Assim o leitor vai encontrar no texto ajuda moral, reconhecendo que os personagens bíblicos são espelhos de identidade e não modelos de moralidade. Pecadores como nós, sustentados pela graça de Deus.

10. A realidade concreta na qual debatem-se as situações morais é, muitas vezes, ambigua, tornando dificil a escolha entre a graça e o juizo de Deus. O tempo e o contexto podem nos ajudar. Em geral as mensagens de graça são dirigidas aos fracos e oprimidos, enquanto as mensagens de juizo são dirigidas aos fortes e seguros.

3 de outubro de 2010

Como amar uma mulher (realmente)

Você realmente já amou uma mulher? (Bryan Adams)

Para realmente amar uma mulher,
para compreende-la
É preciso conhecê-la profundamente,
ouvir cada pensamento seu
Ver cada sonho,
e dar a ela asas quando ela quiser voar
e quando você se encontrar
desamparado em braços,
você entenderá que realmente ama uma mulher.

Para amar uma mulher
Diga que ela é realmente necessária
Para amar uma mulher
Diga-lhe que ela é única
E precisa de alguém
Que diga a ela que isso vai durar para sempre

Portanto responda-me se você realmente
Realmente já amou uma mulher
Para realmente amar uma mulher
Deixe que ela abrace você
Ate que você compreenda como ela precisa
Ser tocada
Você deve respira-la
Realmente saboreá-la
Ate senti-la em seu sangue
Quando você puder ver
Nos olhos dela seus filhos que estão por nascer
Você compreendera que realmente ama uma mulher

Para amar uma mulher
Diga-lhe realmente o que ela procura
Para amar uma mulher
Diga-lhe que ela é única
Ela precisa de alguém
Para dizer-lhe que vocês
Sempre estarão juntos

Portanto responda-me se você realmente
Realmente amou uma mulher?

Você deve dar-lhe muita fé
Abraça-la estreitamente com maciez
Você precisa trata-la bem e saber que
Ele estará ao seu lado e cuidando de você