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26 de dezembro de 2010

A justiça

Com a justiça, apresento a ultima das quatro virtudes cardeais (que de acordo com conceitos formados pela Igreja Catolica polarizam as outras virtudes humanas).
A justiça talvez seja o valor mais controverso. Pois é difícil definir e mensura-la.  Para Comte-Sponville ela é sem dúvida a única virtude cardeal que é absolutamente boa.
"A justiça não é uma virtude como as outras. Ela é o horizonte de todas e a lei de sua coexistência. “Virtude completa”,dizia Aristóteles. Todo valor a supõe; toda humanidade a requer.
O justo, inversamente, será aquele que não viola nem a lei nem os interesses legítimos de outrem, nem o direito (em geral) nem os direitos (dos particulares), em suma, aquele que só fica com a sua parte dos bens, explica Aristóteles, e com toda a sua parte dos males. A justiça situa-se inteira nesse duplo respeito à legalidade, na Cidade, e à igualdade entre indivíduos: “o justo é o que é conforme a lei e o que respeita a igualdade, e o injusto o que é contrário à lei e o que falta com a igualdade.”
A justiça, lemos em Platão, é o que reserva a cada um sua parte, seu lugar, sua função, preservando assim a harmonia hierarquizada do conjunto. Seria justo dar a todos as mesmas coisas, quando eles não têm nem as mesmas necessidades nem os mesmos méritos? Exigir de todos as mesmas coisas, quando eles não têm nem as mesmas capacidades nem os mesmos encargos? Mas como manter então a igualdade, entre homens desiguais? Ou a liberdade, entre iguais?
Devemos então renunciar a nosso próprio interesse? Claro que não. Mas devemos submetê-lo à justiça, e não o contrário. Senão? Senão, contente-se com ser rico, responde Alain, e não tente ainda por cima ser justo.
A justiça é a igualdade, mas a igualdade dos direitos, sejam eles juridicamente estabelecidos ou moralmente exigidos. A justiça é uma condição de igualdade, à qual nossas trocas devem submeter-se.
Diante do desmedido da caridade, para a qual o outro é tudo, diante do desmedido do egoísmo, para o qual o eu é tudo, a justiça se mantém na medida que sua balança simboliza, em outras palavras, no equilíbrio ou na proporção: a cada um sua parte, nem de mais nem de menos, como diz Aristóteles,
Em outras palavras, é chamado justo “quem tem uma vontade constante de atribuir a cada um o que lhe cabe”.

Pequeno tratado das grande virtudes, Andre Comte-Sponville

21 de dezembro de 2010

A Espiritualidade no sexo

“O fato dos seres humanos serem, em sua essência, profunda e pessoalmente identificados com a sua sexualidade faz com que a questão da santidade sexual esteja intimamente ligada à integridade espiritual. Por boas razoes, os antigos e muitas pessoas envolvidas com a Nova Era hoje consideram a experiência sexual como essencialmente religiosa. Ela inclui anseio, fome por união, abandono e êxtase (literalmente tirar uma pessoa “para fora de sua existência”).


Quando Deus criou a humanidade, ele a fez homem e mulher à sua imagem. O próprio Deus é uma comunidade de amor – Pai, Filho e Espírito Santo. Para expressar em linguagem humana o mistério dessa união, Agostinho descreve Deus como Amante, Amado e o Próprio Amor. Assim, por incrível que possa parecer Deus ama Deus.


Mas porque Deus é amor, ele fez uma criatura que jamais poderia ser como Deus ou refletir sua natureza sem se relacionar. Deus criou este desejo básico pelo outro a fim de que sabermos que não fomos feitos para viver individualmente e em isolamento, mas em comunidade. Homens e mulheres por si mesmos, que sejam casados ou solteiros, não são imagem de Deus, mas somente homens em relação a mulheres e mulheres em relação a homens. Somos como Deus em nossa necessidade de sermos pessoas em comunhão sem perdermos a nossa identidade. O desejo sexual expressa a imagem e semelhança de Deus dentro de nós.


A união para a qual somos atraídos não é o impulso de unir-se – torna-se um com o outro de modo que a nossa identidade se perca, como uma gota d’agua no oceano. Ao contrario, trata-se de um apetite por uma comunhão, imersão mutua, uma unidade obtida não a despeito da diversidade, mas por causa dela. A relação sexual é um forte símbolo disso – a penetração mutua de pessoas. Eu enfatizo pessoas porque não fazemos sexo com corpos, mas com pessoas como um todo.


O ato sexual é tão profundo e significativo na vida que o nosso Deus infinitamente sábio criou um único contexto para a sua completa expressão: uma aliança vitalícia desfrutada na companhia mutua do matrimonio.


Todas as relações interpessoais são necessariamente arriscadas e serias. O entregar-se um ou outro de corpo e alma, raramente é algo isento de perigos... Quer saibamos ou não, quando somos sexualmente ativos, votamos com a nossa genitália em prol de nossa própria substituição ou morte. Sexo seguro é uma autoilusão de almas superficiais."

Retirado do livro “ A espiritualidade na pratica” R Paul Stevens

12 de dezembro de 2010

A coragem

A coragem, como superação do medo, é uma característica marcante e valorizada por varias culturas em todos os tempos. Quem não idolatra o herói que é capaz de correr vários riscos pela mocinha? Entretanto, esta admiração universal não garante por si só o status de virtude nem à coragem e nem à outra característica humana. Alem disso, a coragem pode servir tanto para o bem quanto para o mal. Por isso, o que leva a coragem ao patamar de virtude para Comte-Sponville é o fato dela se colocar a serviço do outro de forma altruísta e generosa. Para tanto não se nega a existência do medo mas este é superado pela vontade altruísta de fazer o bem a quem dele necessitar.
Em suas próprias palavras: “O que estimamos, na coragem, e que culmina no sacrifício de si, seria, pois, em primeiro lugar, o risco aceito ou corrido sem motivação egoísta, em outras palavras, uma forma, se não sempre de altruísmo, pelo menos de desinteresse, de desprendimento, de distanciamento do eu”
“Já não é a coragem dos durões, é a coragem dos doces, e dos heróis.”
“Um deus não precisaria dela (da coragem). Nem um sábio, talvez, se só vivesse nos bens imortais ou eternos evocados por Epicuro ou Spinoza. Mas isso não é possível, e é por isso que, de novo, precisamos de coragem. Coragem para durar e agüentar, coragem para viver e para morrer, coragem para suportar, para combater, para enfrentar, para resistir, para perseverar… Spinoza chama de firmeza de alma (animositas) esse “desejo pelo qual cada um se esforça por conservar seu ser sob o exclusivo ditame da razão”. Mas a coragem está no desejo, não na razão; no esforço, não no ditame. Trata-se sempre de perseverar em seu ser (é o que Éluard chamará de “o duro desejo de durar”), e toda coragem é feita de vontade.”

Fonte: Pequeno tratado das grandes virtudes, Andre Comte-Sponville