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31 de março de 2011

O menino perdido - Pablo Neruda

Lenta infância de onde
como de um pasto comprido
cresce o duro pistilo,
a madeira do homem.


Quem fui? O que fui? O que fomos?


Sem resposta. Passamos.
Não fomos. Éramos. Outros pés,
outras mãos, outros olhos.
Tudo foi mudando folha por folha,
na árvore. E em ti? Mudou a tua pele,
o teu cabelo, a tua memória. Aquele que não foste.
Aquele foi um menino que passou correndo
atrás de um rio, de uma bicicleta,
e com o movimento
foi-se a tua vida com aquele minuto.
A falsa identidade seguiu os teus passos.
Dia a dia as horas se amarraram,
mas tu já não foste, veio o outro,
o outro tu, e o outro até que foste,
até que te arrancaste
do próprio passageiro,
do trem, dos vagões da vida,
da substituição, do caminhante.
A máscara do menino foi mudando,
emagreceu a sua condição enfermiça,
aquietou-se o seu volúvel poderio:
o esqueleto se manteve firme,
a construção do osso se manteve,
o sorriso,
o passo, o gesto voador, o eco
daquele menino nu
que saiu de um relâmpago,
mas foi o crescimento como um traje!
Era outro o homem e o levou emprestado.


Assim aconteceu comigo.


Um rustico
cheguei a cidade, a gás, a rostos cruéis
que mediram a minha luz e a minha estatura,
cheguei a mulheres que em mim se procuraram
como se a mim tivessem perdido,
e assim foi sucedendo
o homem impuro,
filho do filho puro,
até que nada foi como tinha sido,
e de repente apareceu no meu rosto
um rosto de estrangeiro
e era também eu mesmo:
era eu que crescia,
era tu que crescias,
era tudo,
e mudamos
e nunca mais soubemos quem éramos,
e às vezes recordamos
aquele que viveu em nós
e lhe pedimos algo, talvez que se recorde de nós,
que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos
com a sua língua,
mas das horas consumidas
aquele nos olha e não nos reconhece.

27 de março de 2011

Amizade, por Henri Nouwen

Um amigo de verdade não é alguém que pode resolver todos os seus problemas ou tem respostas para todas as perguntas. Também não é alguém que vai embora quando não há nenhuma solução ou resposta, mas fica com você, permanece fiel a você. Muitas vezes, quem nos dá maior conforto não é a pessoa que diz: "Faça isso, diga aquilo, vá lá"; mas quem, mesmo se não há nenhum bom conselho para dar, afirma: "Não importa o que acontecer, eu sou seu amigo; você pode contar comigo". Quanto mais velho você se torna, mais descobre que sua alegria e felicidade dependem de tais amizades. O grande segredo da vida é que o sofrimento frequentemente parece ser tão insuportável que pode se tornar, na compaixão, uma fonte de vida e esperança novas.
A amizade é um dos maiores dons que um ser humano pode receber. É um vínculo que ultrapassa objetivos, interesses ou histórias em comum. É um vínculo mais forte do que aquele que a união sexual pode criar, mais profundo do que o que um destino partilhado pode solidificar, e ainda pode ser mais íntimo que os laços do matrimônio ou da comunidade. A amizade é estar com o outro na alegria e na tristeza, mesmo quando não podemos aumentar a alegria e diminuir a tristeza. É uma união de almas que confere nobreza e sinceridade ao amor, fazendo a vida brilhar intensamente.
Abençoados são aquele que dão a vida pelos amigos.



24 de março de 2011

Faça do Hoje uma Obra Prima!

John Wooden, treinador de basquete do time da Universidade de Los Angeles e membro do “Hall da Fama”, disse: “Com muita freqüência nos distraímos com coisas que estão fora do nosso controle. A porta para o passado foi fechada e a chave foi jogada fora. E você não pode fazer nada quanto ao amanhã; ele ainda está por vir. No entanto, o amanhã é determinado pelo que fazemos hoje. Por isso, faça do hoje uma obra prima”. Para fazer isso, são necessários dois ingredientes: decisão e disciplina para terminar o que se começou. Um é inútil sem o outro. O tempo é um empregador que oferece oportunidades iguais. Mas o modo como tratamos o tempo não é igual. Por exemplo, dê um bloco de mármore a uma pessoa comum e você tem um bloco de mármore! Mas coloque-o nas mãos de um exímio escultor e observe. Primeiro, ele decide no que o bloco pode ser transformado. Depois, esquematiza um plano. Então, pratica as disciplinas de sua arte até que ele se transforme em uma obra prima. Como? Reconhecendo e liberando o potencial que há nele.

Grande parte de nós falha em reconhecer a nossa falta de sucesso como “tomadores de decisão”! Fazemos escolhas, experimentamos conseqüências negativas e ficamos nos perguntando por que não conseguimos progredir. Outros sabem que as suas escolhas não são boas para eles, mas as fazem de qualquer jeito – como os alcoólatras que continuam bebendo, ou a pessoa que entra em um relacionamento atrás do outro. Ninguém disse que boas decisões são fáceis, mas elas são necessárias para o sucesso. É por isso que Davi escreveu, “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio”.

 “A Palavra Para Hoje” – UCB International. Ed Be Blessed.

22 de março de 2011

Tolerância, a virtude possivel

“ A tolerância é uma virtude delicada pois só pode ser considerada virtude se for na dose certa – e este é um grande desafio. Tolerar tudo não é mais tolerância e sim indiferença. Tolerar é aceitar o que poderia ser condenado, é deixar fazer o que se poderia impedir ou combater. Portanto, é renunciar a uma parte de seu poder, de sua força, de sua cólera… Assim, toleramos os caprichos de uma criança ou as posições de um adversário. Mas isso só é virtuoso se assumirmos, como se diz, se superarmos para tanto nosso próprio interesse, nosso próprio sofrimento, nossa própria impaciência. A tolerância só vale contra si mesmo, e a favor de outrem. Não há tolerância quando nada se tem a perder, menos ainda quando se tem tudo a ganhar em suportar, isto é, em nada fazer.”
A tolerância tem a ver com a humildade, ou antes, dela decorre, como esta máxima da boa-fé: amar a verdade até o fim é também aceitar a dúvida em que ela resulta, para o homem. De acordo com Voltaire: “Devemos tolerar-nos mutuamente, porque somos todos fracos, inconseqüentes, sujeitos à mutabilidade, ao erro.” Humildade e misericórdia andam juntas, e esse conjunto, no que se refere ao pensamento, conduz à tolerância.
“Tolerar não é, evidentemente, um ideal”, já notava Abauzit, “não é um máximo, é um mínimo.” Claro, mas é melhor que nada ou que seu contrário! É evidente que mais valem o respeito ou o amor. Se a palavra tolerância se impôs, entretanto, é sem dúvida porque de amor ou de respeito todos se sentem muito pouco capazes, em se tratando de seus adversários – ora, é em relação a eles, primeiramente, que a tolerância age… “Esperando o belo dia em que a tolerância se incline ao amor”, conclui Jankélévitch, “diremos que a tolerância, a prosaica tolerância é aquilo que melhor podemos fazer! A tolerância – por menos exaltante que seja esta palavra – é, pois, uma solução passável; à espera de melhor, isto é, à espera de que os homens possam se amar, ou simplesmente se conhecer e se compreender, demo-nos por felizes com que eles comecem a se suportar. A tolerância é, pois, um momento provisório.” Que esse provisório é feito para durar, que claro. Se ele cessasse, seria de se temer que a barbárie, em vez do amor, lhe sucedesse! Pequena virtude, também ela, a tolerância talvez desempenhe, na vida coletiva, o mesmo papel da polidez na vida interpessoal: é apenas um começo, mas o é. Sem contar que às vezes é necessário tolerar o que não se quer nem respeitar nem amar. "

Andre Comte-Sponville, Pequeno tratado das grandes virtudes

13 de março de 2011

Simplicidade, a virtude dos sábios

Achei muito interessante o fato de Comte-Sponville considerar a simplicidade como uma virtude, e um virtude destacada entre tantas que escolheu para escrever. O mundo atual é conhecido pela complexidade das coisas e relações. O simples não é muito valorizado pois pode ser questionado, refutado, entendido. Parece que o que o complexo é mais importante simplesmente pela dificuldade de compreensão. O autor então desmistifica isso quando coloca a simplicidade como liberdade, leveza, transparência, por isso necessária em nossas relações. Não significa que devamos negar a existência do complexo, mas que devemos buscar simplificar as coisas e as relações.

"O simples não se questiona tanto assim sobre si mesmo. Porque se aceita como é? Já seria dizer demais. Ele não se aceita nem se recusa. Não se interroga, não se contempla, não se considera. Não se louva nem se despreza. Ele é o que é, simplesmente, sem desvios, sem afetação, ou antes – pois ser lhe parece uma palavra grandiosa demais para tão pequena existência -, faz o que faz, como todos nós, mas não vê nisso matéria para discursos, para comentários, nem mesmo para reflexão. Ele é como os passarinhos de nossas florestas, leve e silencioso sempre, mesmo quando canta, mesmo quando pousa. O real basta ao real, e essa simplicidade é o próprio real. Assim é o simples: um indivíduo real, reduzido à sua expressão mais simples. O canto? O canto, às vezes; o silêncio, mais freqüentemente; a vida, sempre. O simples vive como respira, sem maiores esforços nem glória, sem maiores efeitos nem vergonha. A simplicidade não é uma virtude que se some à existência. É a própria existência, enquanto nada a ela se soma. Por isso é a mais leve das virtudes, a mais transparente e a mais rara.  A simplicidade é o contrário da duplicidade, da complexidade, da pretensão.

A simplicidade no homem – a simplicidade como virtude – tampouco tem porque negar a consciência ou o pensamento. Ao contrário, ela se reconhece por essa sua capacidade de, sem anular uma e outro, ir além de ambos, libertar-se de ambos, não se deixar enganar por eles, nem ser sua prisioneira.

Transparência do olhar, pureza do coração, sinceridade do discurso, retidão da alma ou do comportamento…

Não, mais uma vez, que a simplicidade se reduza à sinceridade, à ausência de hipocrisia ou de mentira. Ela é antes a ausência de cálculo, de artifícios, de composição.

O simples é aquele que não simula, que não presta atenção (em si, na sua imagem, na sua reputação), que não calcula, que não tem artimanhas nem segredos, que não tem segundas intenções, programa, projeto…

Segue seu pequeno caminho, de coração leve, alma em paz, sem objetivo, sem nostalgia, sem impaciência. O mundo é seu reino, e lhe basta. O presente é sua eternidade, e o satisfaz. Nada tem a provar, pois não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali. Há coisa mais simples que a simplicidade? Há coisa mais leve? É a virtude dos sábios, e a sabedoria dos santos."

Andre Comte-Sponville