Pesquisar este blog

15 de maio de 2011

A doçura, Andre Comte-Sponville

“Hay que endurecer, pero perder la ternura jamás.” Che Guevara

Para Comte-Sponville a doçura é a virtude responsável por limitar o poder e o efeito da violência. Para nós cristãos ele pode ser chamada de mansidão, uma das virtudes do próprio Cristo.

“A doçura é antes de tudo uma paz, real ou desejada: é o contrário da guerra, da crueldade, da brutalidade, da agressividade, da  violência… Paz interior, e a única que é uma virtude. Muitas vezes permeada de angústia e de sofrimento (Schubert), às vezes iluminada de alegria e de gratidão (Etty Hillesum), mas sempre desprovida de ódio, de dureza, de insensibilidade…

“Aguerrir-se e endurecer-se são duas coisas diferentes”, notava Etty Hillesum em 1942. A doçura é o que as distingue. É amor em estado de paz, mesmo na guerra, tanto mais forte quanto é aguerrido, e tanto mais doce. A agressividade é uma fraqueza, a cólera é uma fraqueza, a própria violência, quando já não é
dominada, é uma fraqueza. E o que pode dominar a violência, a cólera, a agressividade, senão a doçura? A doçura é uma força, por isso é uma virtude: é força em estado de paz, força tranqüila e doce, cheia de paciência e de mansuetude.

A doçura é o que mais se parece com o amor, sim, mais ainda que a generosidade, mais ainda que a compaixão. Aliás, ela não se confunde nem com uma nem com outra, embora na maioria das vezes as acompanhe. A compaixão sofre com o sofrimento do outro; a doçura se recusa a produzi-lo ou a aumentá-lo. A generosidade quer fazer bem ao outro; a doçura se recusa a lhe fazer mal. E que ela vai além da compaixão, pois a antecipa, pois não precisa dessa dor da dor… Mais negativa talvez do que a afirmativa generosidade, porém mais positiva também do que a compaixão totalmente reativa, a doçura mantém-se entre as duas, sem nada que pese ou ostente, sem nada que force ou que agrida.

A doçura  é acolhida, é respeito, é abertura. Virtude passiva, virtude de submissão, de aceitação? Talvez, e mais essencial ainda por causa disso. Que sabedoria sem passividade? Que amor sem passividade? Que ação, inclusive, sem passividade?  A ação não é o ativismo, não é a agitação, não é a impaciência. A passividade, inversamente, não é a inação ou a preguiça. Deixar-se levar pela corrente, diz Prajnânpad, nadar com ela, nela, em vez de se esfalfar contra as águas ou se deixar arrastar… A doçura submete-se ao real, à vida, ao devir, ao mais ou menos do cotidiano: virtude de flexibilidade, de paciência, de devoção, de adaptabilidade…

A doçura é  poder sobre si, contra si se preciso.

A doçura é uma espécie de bondade natural ou espontânea, cuja máxima,  seria antes a seguinte: “Faz teu bem com o menor mal possível ao outro.” Essa máxima da doçura, menos elevada sem dúvida do que a da caridade, menos exigente, menos exaltante, é também mais acessível, por isso mais útil de fato, e mais necessária. Podemos viver sem caridade, toda a história da humanidade o prova. Mas sem um mínimo de doçura, não.

Devemos então, por doçura, pregar a não violência? A coisa não é tão simples assim, pois a não-violência, levada ao extremo, nos impediria de combater eficazmente a violência criminosa ou bárbara, não apenas quando nos visa, ou que a caridade ainda poderia admitir ou justificar, mas quando visa outrem, por exemplo quando massacra ou oprime inocentes indefesos, o que nem a caridade nem a justiça poderiam tolerar. Quem não lutaria para salvar uma criança? Quem não se envergonharia de não o fazer? “A não-violência só é boa se for eficaz”, escreve Simone Weil. Isso quer dizer que a escolha não é de princípio, mas de circunstância.  A fortiriori, a doçura só é boa se não sacrifica as exigências da justiça e do amor, que se devem antes de tudo aos mais fracos, convém recordar, e muito mais às vítimas do que aos carrascos.

Virtude feminina, graças à qual – e só a ela – a humanidade é humana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário