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26 de junho de 2011

A virtude do humor

Que ele seja uma virtude poderá surpreender. Mas é que toda a seriedade é condenável, referindo-se a nós mesmos. O humor nos preserva dela e, além do prazer que sentimos com ele, é estimado por isso.

Se “a seriedade designa a situação intermediária de um homem eqüidistante entre desespero e futilidade”, como diz lindamente Jankélévitch, devemos observar que o humor, ao contrário, opta resolutamente pelos dois extremos. “Polidez do desespero”, dizia Vian, e a futilidade pode fazer parte dela. É impolido dar-se ares de importância. É ridículo levar-se a sério. Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é ser demasiado severo ou demasiado agressivo, é quase sempre carecer, com isso, de generosidade, de doçura, de misericórdia… O excesso de seriedade, mesmo na virtude, tem algo de suspeito e de inquietante: deve haver alguma ilusão ou algum fanatismo nisso… É virtude que se acredita e que, por isso, carece de virtude.

 O humor, ao contrário, é uma manifestação de generosidade: sorrir daquilo que amamos é amá-lo duas vezes mais.” Duas vezes mais? Não sei. Digamos que é amar melhor, com mais leveza, com mais espírito, com mais liberdade.

O humor não é nem a seriedade (para a qual tudo faz sentido), nem a  frivolidade (para a qual nada tem sentido). Mas é um meio-termo instável, ou equívoco, ou contraditório, que desvenda o que há de frívolo em toda seriedade, e de sério em toda frivolidade. O homem de humor, diria Aristóteles, ri como se deve (nem de mais nem de menos), quando se deve e do que se deve… Mas quem decide é só o humor, que pode rir de tudo, inclusive de Aristóteles, inclusive do meio-termo, inclusive do humor…

Riremos tanto melhor, ou o humor será tanto mais profundo, quando o sentido alcançar zonas mais importantes de nossa vida, ou acarretar com ele, ou fizer vacilar, trechos mais vastos de nossas significações, de nossas crenças, de nossos valores, de nossas ilusões, digamos, de nossa seriedade.

O humor é uma desilusão alegre. É nisso que é duplamente virtuoso, ou pode sê-lo: como desilusão, tem a ver com a lucidez (portanto da boa-fé); como alegria, tem a ver com o amor, e com tudo. O espírito, repitamos com Alain, zomba de tudo. Quando zomba do que detesta ou despreza, é ironia. Quando zomba do que ama ou estima, é humor. O que mais amo, o que estimo mais facilmente? “Eu mesmo”, como dizia Desproges. Isso diz o suficiente sobre a grandeza do humor, e sobre sua raridade. Como não seria uma virtude?

Pequeno tratado das grandes virtudes, Andre Comte-Sponville

18 de junho de 2011

O mistério da vida, o mistério da morte e o mistério da ressurreição

   A cada segundo, nascem 4,4 pessoas ao redor do mundo e morre quase o mesmo número. Graças ao pequeno saldo a favor dos que nascem, a população continua a crescer. Quando alcançarmos o pico da população mundial, talvez no final deste século, haverá por algum tempo certo equilíbrio entre os que nascem e os que morrem. A partir de então, é provável que o número de mortes supere o número de nascimentos e a população comece a diminuir. A morte pode perder a batalha demográfica (quando o número de nascimentos supera o número de mortes), mas nunca perde a batalha travada entre ela e a vida.
Temos sido obrigados a misturar o mistério da vida com o mistério da morte. Poucos anos atrás, por exemplo, enquanto um grupo de pessoas celebrava com muita alegria o casamento de um doutorando em botânica de 28 anos, outro grupo velava com muita tristeza o corpo do orientador do noivo, um professor de 58 anos.
No primeiro domingo de novembro de 2006, um garoto de sete anos vibrava com o passeio que fazia numa praia de Porto Seguro, BA, em cima de um “bote-banana”. Na última manobra da embarcação, quando todos deveriam cair na água, o pequeno Lucas teve a cabeça literalmente decepada pela hélice da lancha ou pelo cabo que ligava a lancha ao bote.
Vamos hoje à loja de móveis para comprar um bercinho, e amanhã, à funerária para comprar uma urna. No berço, colocamos nossos recém-nascidos e, na urna funerária, os nossos recém-mortos.
Ao mesmo tempo que misturamos o mistério da vida com o mistério da morte, precisamos misturar o mistério da morte com o mistério da ressurreição. Isso é muito confortante, mas é matéria de fé. A ciência não nos leva à ressurreição do corpo.
Dos três grandes mistérios — o mistério da vida (ainda não totalmente desvendado), o mistério da morte (ainda profundamente complexo) e o mistério da ressurreição (ainda não verificado) — o maior deles é o mistério da ressurreição.
Chama-se de mistério tudo aquilo que a inteligência humana é incapaz de explicar ou compreender. É aí que entra a outra faculdade humana, a capacidade de acreditar em Deus, em seus atributos e em sua Palavra.
A ressurreição do corpo é uma esperança tão certa como a vida, tão certa como a morte. Essa esperança está de tal modo vinculada à ressurreição de Cristo que, se esta não acontecer, todo edifício religioso construído sobre pessoa de Jesus desmorona por completo. Não fica pedra sobre pedra.

Elben M. Lenz César

15 de junho de 2011

Depois de algum tempo

Este é mais um dos classicos da internet cujo autor nao recebe os devidos creditos. É um poema publicado em 1971 por uma autora americana chamada Veronia Shoffstall e recebeu varias versoes pela internet. Estou publicando o original que é muito interessante:

Depois de algum tempo você aprende a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa se apoiar e que companhia nem sempre significa segurança.
E você aprende que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
E você começa a aceitar suas derrotas com cabeça erguida e olhos adiante,
com a leveza de uma mulher, não a tristeza de uma criança.
E você aprende a construir as suas estradas hoje porque o terreno do amanhã é incerto demais para planos
e futuros têm o hábito de cair em meio ao vôo.
Depois de um tempo você aprende que mesmo a luz do sol queima se você tiver muito dela.
Aí você planta seu próprio jardim e enfeita sua própria alma ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode aguentar que você realmente é forte e que você realmente tem valor.
E você aprende e você aprende...com cada adeus você aprende.

12 de junho de 2011

A boa-fé

A boa-fé é um fato, que é psicológico, e uma virtude, que é moral. Como fato, é a conformidade dos atos e das palavras com a vida interior, ou desta consigo mesma. Como virtude, é o amor ou o respeito à verdade, e a única fé que vale.

Ser de boa-fé não é sempre dizer a verdade, pois podemos nos enganar, mas é pelo menos dizer a verdade sobre o que cremos, e essa verdade, ainda que a crença seja falsa, nem por isso seria menos verdadeira. É o que se chama também de sinceridade (ou veracidade, ou franqueza), e o contrário da mentira, da hipocrisia, da duplicidade, em suma, de todas as formas, privadas ou públicas, da má-fé. Há mais, porém, na boa-fé do que na sinceridade – em todo caso é uma distinção que proponho. Ser sincero é não mentir a outrem; ser de boa-fé é não mentir nem ao outro nem a si.

A boa-fé é uma sinceridade ao mesmo tempo transitiva e reflexiva. Ela rege, ou deveria reger, nossas relações tanto com outrem como conosco mesmos. Ela quer, entre os homens como dentro de cada um deles, o máximo de verdade possível, de autenticidade possível, e o mínimo, em conseqüência, de artifícios ou dissimulações.

Não há sinceridade absoluta, mas tampouco há amor ou justiça absolutos: isso não nos impede de tender a elas, de nos esforçar para alcançá-las, de às vezes nos aproximarmos delas um pouco… A boa-fé é esse esforço, e esse esforço já é uma virtude.

“A sinceridade”, dizia La Rochefoucauld, “é uma abertura de coração que nos mostra tais como somos; é um amor à verdade, uma repugnância a se disfarçar, um desejo de reparar seus defeitos e até de diminuí-los, pelo mérito de confessá-los.”

A boa-fé, como todas as virtudes, é o contrário do narcisismo, do egoísmo cego, da submissão de si a si mesmo. É por intermédio disso que ela tem a ver com a generosidade, a humildade, a coragem, a justiça… Justiça nos contratos e nas trocas,  coragem de pensar e de dizer, humildade diante do verdadeiro, generosidade diante do outro…

 “Aquele que diz a verdade porque é obrigado e porque ela serve, e que não teme dizer mentira, quando não importa a ninguém, não é suficientemente verdadeiro.”

A boa-fé é o amor à verdade, na medida em que esse amor comanda nossos atos, nossas palavras, até mesmo nossos pensamentos.

Mentir supõe que se conheça a verdade, ou que se creia conhecê-la, e que se diga deliberadamente outra coisa que não o que se sabe ou o que se crê. É isso que a boa-fé proíbe, ou recusa. Ser de boa-fé é dizer o que se pensa ser verdadeiro.

A boa fé só não se justifica quando confrontada com a caridade, a prudência e/ou a justiça; Mentir para defender uma causa nobre  vale mais do que a verdade absoluta indiferente ao amor.  A veracidade é uma virtude menos importante do que a justiça, do que a compaixão, do que a generosidade, menos importante do que o amor, evidentemente, ou antes, menos importante, como amor à verdade, do que a caridade como amor ao próximo.

Deve-se dizer a verdade, ou o mais de verdade possível, pois a verdade é um valor, pois a sinceridade é uma virtude; mas não sempre, mas não a qualquer um, mas não a qualquer preço, mas não de qualquer maneira!

Pequeno tratado das grandes virtudes, André Comte-Sponville