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28 de julho de 2011

Celebrar a singularidade

Este texto é um fragmento do capitulo "Atitudes" do excelente livro de Ed Rene Kivitz, Vivendo com propósitos. Recomendo muito a leitura deste livro. Esta é a primeira atitude recomendada por ele para melhorar nossos relacionamentos. As outras atitudes serão postadas em breve!

"Singularidade. Essa é a palavra–chave da identidade humana. Cada pessoa é um universo em si mesma. Universo aberto, é verdade, mas ainda assim um universo. Cada um com sua história, suas peculiaridades, seus sonhos, suas idiossincrasias, isto é, suas disposições de temperamento, maneira de ver de sentir, de agir e de reagir. Cada um com seu gosto pessoal, suas disposições naturais e suas sensibilidades específicas. Essa é a riqueza da humanidade. Agostinho acreditava que Deus era capaz de "amar um como se fosse todos, e todos como se fossem um". Que mistério, pois, de fato uma pessoa é tudo, e todas juntas não valem mais do que uma só. Cada pessoa é uma riqueza plena. "Cada ser humano é uma novidade", e "todo ser humano é um original". Tomando isso como verdadeiro, a convivência que não sabe celebrar essa individualidade está fadada ao fracasso. A exigência da mudança de outro para que relacionamento seja mantido ou se torne satisfatório é a própria morte do relacionamento. É lógico. Caso eu exija que você mude para que eu continue me relacionando com você, na verdade não quero me relacionar com você, mas com outro você, idealizado em minha cabeça e mais conveniente às minhas necessidades.

Karl Lachler, meu professor no Seminário de Teologia, me ensinou que o ideal do casamento é que um mais um some um, mas que, em alguns casamentos, um mais um somam três ou quatro. A Bíblia ensina que "o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne", em que um mais um somam um. Mas quando alguém se une a uma mulher real e leva consigo, em sua imaginação, outra mulher ideal, um mais um somam três, e se a mulher faz a mesma coisa, um mais um somam quatro. Provavelmente, passarão a vida tentando mudar um ao outro, jamais celebrando o que são, uma vez ocupados em tornar cada um o outro no que gostariam que fossem. O convite primeiro de Deus é para nos tornarmos seus filhos amados. A declaração mais surpreendente de Deus a respeito de Jesus de Nazaré é: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo".4 O que surpreende não é a declaração, mas sim o momento em que foi proferida, a saber, antes mesmo de Jesus iniciar seu ministério terreno. Isso significa que o amor declarado não estava baseado na performance nem na utilidade de Jesus para o Pai. O amor de Deus é assim: celebra o que somos, independentemente do que fazemos ou do que deixamos de fazer. Mais ainda, o amor de Deus celebra o que somos, independentemente do que devemos ser justamente por ser capaz, de celebrar sem cobrar, o amor dá espaço para vir a ser.

A razão de exigirmos que as pessoas sejam, ou que se tornem, aquilo que queremos geralmente está associada á opinião dos outros a nosso respeito. O que vão dizer do pai que deixa o filho se lambuzar de chocolate e lamber os dedos? O que vão dizer de um marido que permite que a esposa o trate desse ou daquele jeito? O que vão pensar de mim quando souberem que eu não fiz nada em resposta àquela agressão? O que vão pensar daqueles marmanjos rindo porque lambuzaram a mesa? Não poucas vezes, exigimos demais das pessoas que amamos por causa das pessoas que não nos amam. A qualidade do amor está em amar o que é, não o que deve ser ou o que gostaríamos que fosse. O segredo por trás desse amor é que ele abre espaço para que aqueles que amamos – ainda que não sejam o que podem ou apesar do que venham a ser – justamente porque os amamos como são e apesar do que não são. Em síntese, quem ama não cobra. Celebra."

Vivendo com propósitos, Ed Rene Kivitz

22 de julho de 2011

Amor, o dom supremo

E ja que o assunto é amor, vou postar hoje um dos textos mais famosos da Biblia. Embora pareça impossivel, é este amor que devemos perseguir:

 
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.
 Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.
E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.
O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece,
não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade;
tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará;
porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos.
Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino.
Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.

1 Corintios 13

18 de julho de 2011

Agape, o amor supremo!

Para encerrar o Pequeno tratado das grandes virtudes, Comte-Sponville trata do amor supremo – Agape. É um amor que não é falta e nem regozijo, mas o amor que leva o ser humano a amar o outro pelo prazer de amar. O outro não precisa ter nenhuma qualidade ou merecimento, pode não fazer falta ou nem mesmo trazer alegria mas ainda assim é amado. Este amor é o mais difícil de alcançar mas o mais necessário entre os seres humanos!
“Ouvistes o que foi dito: Amarás teu próximo e odiarás teu inimigo. Pois eu vos digo: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem…” Quer Cristo tenha existido ou não, e não obstante o que tenha vivido ou dito efetivamente, o que jamais saberemos, quem não vê que a mensagem evangélica, tal como chegou até nós, excede em muito as capacidades do erôs (como é óbvio) e também da philia? Amar o que falta está ao alcance de qualquer um. Amar os amigos (os que não faltam, os que nos fazem bem ou que nos amam), embora seja mais difícil, continua sendo acessível. Mas e amar os inimigos? E amar os indiferentes? E amar os que não nos faltam nem nos alegram? E amar os que nos estorvam, que nos entristecem ou nos fazem mal? Como seríamos capazes? Como, inclusive, poderíamos aceitá-lo? Escândalo para os judeus, dirá são Paulo, loucura para os gregos; e, de fato, isso excede a Lei tanto quanto o bom senso. No entanto, e ainda que só existisse a título de ideal ou de imaginação, esse amor além do amor (além do erôs, além da philia), esse amor sublime e talvez impossível merece pelo menos um nome. Esse nome, em francês, é, em geral, charité [caridade]. Mas essa palavra foi tão deturpada, prostituída, maculada (por dois mil anos de condescendência clerical, aristocrática e, depois, burguesa), que é melhor remontar à fonte e continuar, depois de erôs e philia, a falar grego; esse amor que não é nem falta nem potência, nem paixão nem amizade, esse amor que ama até seus inimigos, esse amor universal e desinteressado é o que o grego das Escrituras então, desde a Bíblia dos Setenta até as epístolas apostólicas, chama de agapé (como no Evangelho de são João: “Deus é amor, o Theos agapé estin”), que a Vulgata traduziu quase sempre por caritas (o amor, o afeto, o que torna caro), que dará de fato, e independentemente de suas perversões anteriores, o francês charité [caridade]. É a terceira definição que eu anunciava, ou antes é o terceiro amor, que ainda não serve de definição, mas que a chama.
Anders Nygren mostrou as características distintivas da agapé cristã: é um amor espontâneo e gratuito, sem motivo, sem interesse, até mesmo sem justificação. Isso a distingue, é claro, do erôs, sempre ávido, sempre egoísta, sempre motivado pelo que lhe falta, sempre encontrando seu valor no outro, sua razão no outro, sua esperança no outro. Mas isso a distingue também da philia, que nunca é totalmente desinteressada (já que o interesse de meus amigos é meu interesse), nunca totalmente gratuita (já que me dou prazer dando-lhes prazer, já que eles me amarão mais por isso, já que me amarei mais), nunca totalmente espontânea ou livre (já que sempre determinada pelo encontro feliz de dois egos, pela combinação harmoniosa de dois egoísmos: “porque era ele, porque era eu…”).
A caridade é um amor de benevolência (uma amizade) que se estende além da amizade propriamente dita, que ultrapassa seus limites, a determinação afetiva ou patológica (no sentido de Kant), a espontaneidade apenas reativa ou preferencial. Por que processo? Por uma espécie de transferência, como diríamos hoje em dia, ou de transitividade, ou de generalização do amor: “A amizade que temos por um amigo pode ser tão grande a ponto de, por causa dele, amarmos os que a ele são ligados, ainda que nos ofendam ou nos odeiem. É dessa maneira que nossa amizade de caridade estende-se inclusive a nossos inimigos: nós os amamos de caridade em referência a Deus, para o qual é principalmente dedicada nossa amizade de caridade.”
Não é porque as pessoas são amáveis que devemos amá-las, é na medida em que as amamos que são (para nós) amáveis. A caridade é esse amor que não espera ser merecido, esse amor primeiro, gratuito, espontâneo, de fato, que é a verdade do amor e seu horizonte.
A caridade é, pois, outra coisa: “É o amor transfigurado em virtude”, como diz Jankélévitch, ou antes (se a amizade, como creio, já pode ser uma virtude), é o amor “tornado permanente e crônico, estendido à universalidade dos homens e à totalidade da pessoa”, que também pode se referir, é claro, àquele de quem somos amante ou amigo, mas que se dirige a todos os humanos, bons ou maus, amigos ou inimigos, o que de resto não nos impede de preferir aqueles (quanto à amizade) nem de combater estes (se pudermos combatê-los sem ódio: se o ódio não for a única motivação do combate), mas que introduz nas relações humanas aquele horizonte de universalidade que a compaixão ou a justiça já sugeriam, por certo, mas sobretudo de maneira negativa ou formal, e que a caridade, na medida do possível, vem encher de um conteúdo positivo e concreto. É a aceitação alegre do outro, e de qualquer outro. Tal como ele é e quem quer que seja.
Que essa perfeição não nos é acessível, está claro. Mas será isso uma razão para renunciarmos ao pouco de amor puro, gratuito ou desinteressado – ao pouco de caridade – de que talvez sejamos capazes? Digo “talvez” porque nada garante que esse amor seja ao menos possível. Mas assim acontece, mostrava Kant, com toda virtude, e isso portanto não refuta nem a caridade nem o dever. Um tal amor está a nosso alcance? Podemos vivê-lo? Podemos nos aproximar dele? Não podemos sabê-lo sem prová-lo. Talvez seja “esse amor que falta a todo amor”, como diz Bobin, ao qual no entanto nada falta, e que por isso nos falta, e nos atrai. Mesmo ausente, ele nos ilumina: a ausência do amor ainda é um amor.
Haveria, pois, para resumir, para simplificar, três maneiras de amar, ou três tipos de amor, ou três gradações no amor: a carência (erôs), o regozijo (philia), a caridade (agapé). Pode ser que esta última seja, em verdade, apenas um halo de doçura, de compaixão e de justiça, que venha temperar a violência da falta ou do regozijo, que venha moderar ou aprofundar o que nossos outros amores possam ter de demasiado brutal ou de demasiado pleno. Há um amor que é como uma fome, outro que ressoa como uma gargalhada. A caridade mais parecia um sorriso, quando não, o que lhe sucede, uma vontade de chorar. Não vejo que isso a condene. Nossos risos são ruins mais freqüentemente que nossas lágrimas.

13 de julho de 2011

Philia entre os casais - amigos-amantes

Continuando a falar sobre o amor Philia, Comte-Sonville destaca sua relevância na vida dos casais; pois se para o casal se formar a paixão ou seja o amor Eros é necessário, o casal só dura se conseguir migrar para o amor Philia...
"Que amantes, se são felizes juntos, não se tornam amigos? E como seriam felizes se assim não fosse?
Podemos nos regozijar (philia) com o que nos falta (erôs), querer possuir (erôs) aquilo cuja existência já é uma felicidade (philia), em outras palavras, amar apaixonadamente, ao mesmo tempo em que alegremente.
Como poderia nos faltar por muito tempo o que temos (em outras palavras, nos faltar o que não nos falta!), como poderíamos amar apaixonadamente aquele ou aquela com que partilhamos a vida cotidiana, desde há anos, como poderíamos continuar a idolatrar aquele ou aquela que conhecemos tão bem, como poderíamos sonhar com o real, como poderíamos continuar apaixonados, numa palavra, e que palavra, por nosso cônjuge?
Tentemos, porém, compreender o que acontece nos outros casais, os que dão mais ou menos certo, os que dão inveja, os que parecem felizes e ainda parecem se amar, e se amar sempre…A paixão intacta, hoje mais que ontem e bem menos que amanhã? Não acredito nisso, e, ainda que isso acontecesse vez por outra, ou que pudesse acontecer, seria tão raro, tão milagroso, tão independente de nossa vontade, que não poderíamos tomar isso como base de uma opção de vida, nem mesmo de uma esperança razoável. De resto, não corresponde à experiência dos casais em questão, que nada têm de pombinhos e que cairiam na risada, na maioria dos casos, se alguém os comparasse a Tristão e Isolda… Simplesmente esses amantes continuam a se desejar e, por certo, se vivem juntos há anos, é mais potência que falta, mais prazer que paixão, e quanto ao mais souberam transformar em alegria, em doçura, em gratidão, em lucidez, em confiança, em felicidade por estar juntos, em suma em philia, a grande loucura amorosa do começo.
A ternura? É uma dimensão de seu amor, mas não a única. Também há a cumplicidade, a fidelidade, o humor, a intimidade do corpo e da alma, o prazer visitado e revisitado (“o amor realizado do desejo que permanece desejo”, como diz Char), há o animal aceito, domesticado, ao mesmo tempo triunfante e vencido, há essas duas solidões tão próximas, tão atentas, tão respeitosas, como que habitadas uma pela outra, como que sustentadas uma pela outra, há essa alegria leve e simples, essa familiaridade, essa evidência, essa paz, há essa luz, o olhar do outro, há esse silêncio, sua escuta, há essa força de ser dois, essa abertura de ser dois, essa fragilidade de ser dois… Constituir apenas um? Faz muito tempo que renunciaram a isso, se é que um dia acreditaram nisso. Amam demais seu duo, com seus harmônicos, seu contraponto, suas dissonâncias às vezes, para querer transformá-lo em impossível monólogo! Passaram do amor louco ao amor sensato, se quisermos, e bem louco seria quem visse nisso uma perda, uma diminuição, uma banalização, quando é ao contrário um aprofundamento, mais amor, mais verdade, e a verdadeira exceção da vida afetiva.
Os que nunca fizeram amor com seu melhor amigo, ou com sua melhor amiga, ignoram algo de essencial, parece-me, sobre o amor e sobre os prazeres do amor, sobre o casal e sobre a sensualidade dos casais. O melhor amigo, a melhor amiga é aquele ou aquela que mais amamos, mas sem sentir sua falta, sem sofrer com isso, sem padecer com isso (de pâtir [padecer] deriva passion [paixão]), é aquele ou aquela que escolhemos, aquele ou aquela que conhecemos melhor, que nos conhece melhor, com quem podemos contar, com quem partilhamos lembranças e projetos, esperanças e temores, felicidades e infelicidades… Quem não vê que é isso, de fato, que acontece num casal, casado ou não, quando dura um pouco, pelo menos sendo um casal unido e não apenas pelo interesse ou pelo conforto, sendo um casal amante, verdadeiro e forte? É o que Montaigne chamava, tão lindamente, de “amizade marital”, e não conheço casal feliz, fora do fogo do começo, que essa categoria não descreva mais adequadamente do que as de falta, paixão ou amor-louco.
O casal, quando é feliz (mais ou menos feliz, isto é, feliz), é, ao contrário, esse espaço de verdade, de vida partilhada, de confiança, de intimidade tranqüila e doce, de alegrias recíprocas, de gratidão, de fidelidade, de generosidade, de humor, de amor…
O mesmo no casal: nada mais natural que amar (philia) a mulher ou o homem que desejamos avidamente (erôs), nada mais normal do que querer bem àquele ou àquela que nos faz bem, do que amar com benevolência, e alegremente, aquele ou aquela que cobiçamos e possuímos… Erôs e philia se misturam, quase sempre, e é isso que chamamos um casal ou uma história de amor. Simplesmente erôs se desgasta à medida que é satisfeito, ou antes (porque o corpo tem suas exigências e seus limites), erôs só renasce para de novo morrer, depois renascer, depois morrer, mas com cada vez menos violência, cada vez menos paixão, cada vez menos falta (cada vez menos erôs, o que não quer dizer menos potência nem menos prazer), ao passo que philia, ao contrário, num casal feliz, não cessa de se fortalecer, de se aprofundar, de se expandir, e é ótimo que seja assim. É a lógica da vida, é a lógica do amor.
É passar do amor carnal, como diz são Bernardo, ao amor espiritual, do amor a si ao amor ao outro, do amor que toma ao amor que dá, da concupiscência à benevolência, da falta à alegria, da violência à doçura – de erôs a philia.

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Andre Comte-Sponville

7 de julho de 2011

Philia, o amor do regozijo

Não há como negar a existência da paixão... o amor que valoriza mais a falta, o desejo do que o objeto do seu amor em si. Mas este não é o único tipo de amor e nem o amor que pode ser considerado uma virtude. De acordo com Comte-Sponville o conceito apresentado por Spinoza nos direciona para o amor-alegria que ele prefere chamar de “Philia” ...

"Philia é o amor, quando desabrocha entre humanos e quaisquer que sejam suas formas, contanto que não se reduza à falta ou à paixão (ao erôs).

Amar é regozijar-se com. Regozijar-se ou gozar, dizia eu; mas o prazer só é um amor, no sentido mais forte do termo, se regozija a alma, o que acontece especialmente nas relações interpessoais. A carne é triste quando não há amor ou quando só se ama a carne. Isso dá razão a Spinoza: o amor é essa alegria que se soma ao prazer, que o ilumina, que o reflete como no espelho da alma, que o anuncia, o acompanha ou o segue, como uma promessa ou um eco de felicidade.
Se alguém lhe disser: “Fico feliz com a idéia de que você existe”; ou então: “Quando penso que você existe, fico feliz”; ou ainda: “Há uma felicidade em mim, e a causa da minha felicidade é a idéia de que você existe…”, você tomará isso por uma declaração de amor, e terá razão, é claro. Mas terá também muita sorte: não apenas porque uma declaração spinozista de amor não é para qualquer um, mas também e principalmente porque é uma declaração de amor, que não lhe pede nada!

Bem sei que quando se diz “eu te amo” também não se pede nada, aparentemente. Tudo depende no entanto do amor de que se trata. Se o amor é falta, dizer “eu te amo” é pedir não apenas que o outro responda “eu também”, mas é pedir o outro mesmo, já que você o ama, já que ele lhe faz falta e já que toda falta, por definição, quer possuir! Que peso para aquele ou aquela que você ama! Que angústia! Que prisão!

Regozijar-se, ao contrário, é não pedir absolutamente nada: é celebrar uma presença, uma existência, uma graça! Que leveza, para você e para o outro! Que liberdade! Que felicidade! Não é pedir, é agradecer. Não é possuir, é gozar e se regozijar. Não é falta, é gratidão. Quem não gosta de agradecer, quando ama? Quem não gosta de declarar seu amor, quando está feliz? E por isso mesmo é dom, é oferenda, é graça em troca. Quem não gosta de ser amado? Quem não se regozija com o regozijo que proporciona? Por isso o amor nutre o amor e o dobra, tanto mais forte, tanto mais leve, tanto mais ativo, diria Spinoza, quanto é sem falta. Essa leveza tem um nome: é a alegria. Eu te amo: tenho alegria por existires. Sob sua forma spinozista, esse gênero de declaração pode parecer estranho. Mas o que importa a forma e o que importa o spinozismo? Há outras maneiras, mais simples, mais freqüentes, de dizer a mesma coisa. Por exemplo esta: “Obrigado por existir, obrigado por ser o que você é, por não faltar ao real!” É declaração de amor saciado. Ou simplesmente um olhar, um sorriso, uma carícia, uma alegria… A gratidão, dizia eu, é a felicidade de amar.
Considerando-se o amor em sua essência, isto é, pelo que ele é, não há amor infeliz. E tampouco há felicidade sem amor.
Digamos que é o amor-alegria, na medida em que é recíproco ou pode sê-lo: é a alegria de amar e ser amado, é a benevolência mútua ou capaz de se tornar mútua, é a vida partilhada, a escolha assumida, o prazer e a confiança recíprocos, em suma é o amor-ação, que se opõe por isso a erôs (o amor-paixão), mesmo que nada proíba que possam convergir ou ir de par.

Pequeno tratado das grandes virtudes, Andre Comte-Sponville

4 de julho de 2011

Eros

O amor é a última virtude apresentada por Andre Comte-Sponville no Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Sabemos que o amor é a maior de todas as virtudes e onde há amor todas as outras virtudes são desnecessarias, pois as mesmas serão praticadas naturalmente. Alias, segundo o autor precisamos das virtudes porque não somos capazes de amar.Ele apresenta os três diferentes tipos de amor, e eu vou fazer uma postagem para cada uma. Vamos ao primeiro. O amor Eros, também conhecido como paixão!

"O amor, escreve Platão, “ama aquilo que lhe falta, e que não possui”. Se nem toda falta é amor (não basta ignorar a verdade para amá-la: além disso é preciso saber-se ignorante e desejar não mais o ser), todo amor, para Platão, é mesmo falta: o amor não é outra coisa senão essa falta (mas consciente e vivida como tal) de seu objeto (mas determinado). Sócrates bate o martelo: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor.” Eros, ao contrário, nunca repousa. A incompletitude é seu destino, pois a falta é sua definição.

Não é mais o amor como o sonhamos, o amor saciado e saciante, o amor água-com-açúcar: é o amor tal como é, em seu sofrimento fecundo, em sua “estranha mescla de dor e de alegria”, como dirá o Fedro, o amor insaciável, o amor solitário, sempre inquieto com o que ama, sempre carecendo de seu objeto, é a paixão, a verdadeira, a que enlouquece e dilacera, a que esfomeia e tortura, a que exalta e aprisiona.

Se o amor é falta, e na medida em que o é, a completitude lhe é por definição vedada. É o que os amantes bem sabem e o que tira a razão de Aristófanes. Uma falta, ao ser satisfeita, desaparece enquanto falta: a paixão não poderia sobreviver por muito tempo à felicidade, nem a felicidade, sem dúvida, à paixão. Daí o grande sofrimento do amor, enquanto a falta domina. E a grande tristeza dos casais, quando não domina mais… O desejo se abole em sua satisfação: portanto ele tem de estar insatisfeito ou morto, estar em falta ou faltando, infeliz ou perdido… 

O que é amar? É carecer do que se ama e querer possuí-lo sempre. Pelo que o amor é egoísta, em todo caso esse amor, é no entanto, perpetuamente posto para fora de si mesmo, extático, como diz Lacan, e esse êxtase (êxtase de si no outro) define muito bem a paixão: é egoísmo descentrado, egoísmo dilacerado, como que repleto de ausência, cheio do vazio de seu objeto, e de si, como se fosse esse próprio vazio. Como poderia possuir sempre, já que vai morrer, e o que quer que seja, já que é falta? “

Mas este é o mais forte, em todo caso o mais violento  o mais rico em sofrimentos, em fracassos, em ilusões, em desilusões… Eros é seu nome; a carência é sua essência; a paixão amorosa seu auge. É o amor ciumento, ávido, possessivo, que longe de sempre se regozijar com a felicidade daquele a quem ama (como faria um amor generoso) sofre atrozmente com ela, mal essa felicidade se afasta dele ou ameaça a sua… Importuno e ciumento, enquanto ama, infiel e mentiroso, assim que deixa de amar. Amor de concupiscência, pois, muito exatamente: estar apaixonado é amar o outro para seu próprio bem. Esse amor não é o contrário do egoísmo, é sua forma passional, relacional, transitiva. É como uma transferência de egoísmo, ou um egoísmo transferencial… Nada a ver com uma virtude, mas muito, às vezes, com o ódio. Eros é um deus ciumento. Quem ama quer possuir, quem ama quer guardar, e só para si. Ela é feliz com outro, e você preferiria vê-la morta! Ele é feliz com outra, e você preferiria velo infeliz com você… Bonito amor esse, que é só amor de si.

Se o amor é falta, como saciá-lo sem o abolir, como satisfazê-lo sem o suprimir, como fazê-lo sem o desgastar ou sem o desfazer? O prazer não é o fim (a meta, mas também o termo) do desejo? A felicidade não é o fim da paixão? Como o amor poderia ser feliz, se só ama o que não é “nem atual nem presente”? Como poderia durar, se é feliz?
 
Mas é esse o único amor de que somos capazes? Só sabemos sentir falta? Sonhar? Que virtude seria essa, que só conduz ao sofrimento ou à religião?"
 
No próximo post vamos ver o outro tipo de amor apontado pelo filosofo...

1 de julho de 2011

Aprender a amar

Acho que a coisa mais difícil na vida é aprender a amar... amar de verdade como as pessoas precisam ser amadas... O ideal seria amar cada um como cada um gostaria de ser amado, mas como não sabemos nem mesmo o que é o amor, se conseguirmos amar cada um como cada um precisa já esta de bom tamanho.
 
Dificilmente encontramos o equilíbrio entre amar demais e de menos. Em casa acabamos amando tanto nossos queridos, pai, mãe, irmãos, cônjuge que muitas vezes os sufocamos impedindo-os de serem eles mesmos... fora de casa amamos tão pouco nossos amigos, colegas e vizinhos que somos muito indiferentes para percebermos suas necessidades e ajudá-los.
Nossa idéia de amor nos diz que se há amor o outro deve fazer tudo por nós independente de suas necessidades e dificuldades... idealizamos uma única forma de amor (a que aprendemos com nossa vivência) e não aceitamos outra forma. Será que existe só um jeito de amar... um jeito certo? Será que nós dominamos o jeito certo de amar?
 
 
Se evocarmos o amor ágape que Cristo nos ensinou podemos pelo menos caminhar na direção correta... é o amor perfeito que nós nunca conseguiremos alcançar, mas do qual quanto mais nos aproximamos melhor nos sentiremos. Impossível experimentá-lo sem ajudada do próprio Cristo, mas muito gratificante.
Isso porque nos torna menos exigentes conosco mesmos e com os outros. Quando percebemos que amar é simplesmente se aceitar e aceitar o outro como realmente é passamos para o estágio do desfrute do amor... ao invés de nos preocuparmos com grandes atitudes nosso foco passa para as pequenas atitudes do dia-a-dia como o silêncio na hora da raiva, o abraço na hora da tristeza, o olhar carinhoso na hora da fraqueza, o elogio na hora da insegurança...
 
 
Se entender o outro é tarefa impossível, podemos começar ouvindo a dica dos Titãs em Epitáfio “queria ter aceitado as pessoas como elas são... a cada um cabe alegrias e a dor que vai no coração” Esta é a melhor forma de aprender a amar!