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14 de agosto de 2011

Perdoar

Perdoar é a terceira atitude proposta por Ed Rene Kivitz para melhorarmos nossos relacionamentos. Ele mostra o lado "B" do perdão, quando o agressor não quer ser perdoado! É uma boa reflexão

Perdoar é dar ao outro a oportunidade de continuar existindo em nossas vidas. Perdoar é colocar o outro diante da chance de avaliar sua maneira de viver e de refazer seus caminhos existenciais. Perdoar é contribuir para que o outro cresça, amadureça, corrija a si mesmo. O momento do perdão é como um parêntese em que as bases de um relacionamento são rediscutidas e os acordos que tornam possível a convivência são renegociados. Alguém perguntaria se é necessário perdoar sempre. Aliás, o apóstolo Pedro perguntou isso a Jesus: "Quantas vezes devemos perdoar?", e recebeu como resposta "setenta vezes sete", que indica o número perfeito de perdão. Mas, nesse mesmo contexto, Jesus contou uma parábola que revolucionou tudo o que sempre me ensinaram a respeito do perdão: a parábola do devedor implacável," na qual um homem que devia quase cento e setenta e quatro toneladas de ouro foi perdoado, mas não perdoou um que lhe devia apenas 30 gramas de ouro. O fim da parábola mostra que o perdão da dívida maior foi cancelado sob a alegação de que aquele que recebeu misericórdia deveria ter sido misericordioso.

Essa parábola ensina pelo menos três coisas imprescindíveis à experiência do perdão. Primeiro, que o credor está disposto a abrir mão da prerrogativa de receber o pagamento da dívida. Isso diz muito a respeito do coração do credor, livre da necessidade de reparação, até porque sabe que a reparação é impossível. Por essa razão, faz a melhor opção. Entre ficar escravo do mix ressentímento–mágoa–ódio–desejo de vingança (às vezes justiça), escolhe a sublime experiência da outorga do perdão. Alguém já disse que guardar ressentimentos equivale a ingerir veneno esperando que aquele que nos ofendeu morra. Nesse sentido, perdoar é drenar o veneno de nosso coração. Perdoar é romper os grilhões da prisão que nos mantêm escravos de um passado inalterável. 


A segunda coisa que a parábola ensina que é o perdão visa a preservação da dignidade de quem foi ofendido. Jesus começa a história dizendo que o credor chamou todos os devedores para um acerto de contas. Sabe por que muitos relacionamentos chegam ao fim? Por falta de eventos sistemáticos de acerto de contas. Uma mágoa hoje, um ressentimento amanhã, uma raiva depois de amanhã, até que, depois de um tempo, existe uma parede quase intransponível entre as partes. Você me pisa hoje, e eu deixo. Você me pisa amanhã, e eu deixo. Então, você me pisa todo dia, e aquilo se torna um padrão de nosso relacionamento. Meu coração vai adoecendo, vou ficando diminuído, e minha dignidade escorre pelo ralo. Acertar contas sistematicamente significa pontuar cada agressão. 


A terceira coisa que podemos aprender com esta parábola é que o perdão visa a trasnsformação do agressor. Ao cancelar o perdão ao homem que não teve misericórdia de seu devedor, Jesus desfaz um mal–entendido a respeito do perdão. Para a maioria das pessoas, o perdão é uma transação que libera da ofensa aquele que ofendeu. Mas quando o perdão é unilateral, e aquele que ofendeu desconsidera o fato de ter ofendido e agride de novo, e de novo, e de novo, então a situação é diferente. A noção de que perdoar setenta vezes sete é perdoar sempre tem duplo significado. Se perdoar setenta vezes sete significa abrir mão da necessidade de reparação e de se recusar a ficar preso à mágoa e ao desejo de vingança, então está correto. Mas se perdoar sempre significa manter relacionamentos a qualquer preço, abrindo mão da dignidade pessoal e mantendo a conduta imprópria do ofensor, então está errado. 


O perdão visa resguardar dignidades, transformar o agressor e restaurar o relacionamento. Por essa razão, o perdão não pode ser outorgado incondicionalmente. Nem mesmo Deus perdoa incondicionalmente. Deus não perdoa todo mundo. A oração do Pai Nosso ensina que Deus nos perdoa na medida do perdão que concedemos aos nossos ofensores. A razão é óbvia: o perdão, em última instância, visa interromper o ciclo de agressão. Um agressor não transformado agredirá novamente. Uma pessoa agredida repetidas vezes será esmagada em sua dignidade. E um agressor contumaz e uma pessoa sem dignidade não fazem um casal, um par de amigos, uma fraternidade.


Vivendo com propósitos, Ed Rene Kivitz

Um comentário:

  1. Tenho dificuldade em perdoar. Dificil esquecer o que nos humilham de alguma forma. A confiança já não é a mesma. E a tendência de um fato acontecer é embaraçosa.

    claudio honorato

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